NÚMEROS, CÂMBIO, “VALOR REAL” E ESPECULAÇÃO

Os números , segundo as últimas notícias dos jornais, não são nada bons: a) o acúmulo de reservas, em decorrência da valorização do real, fez o prejuízo do Banco Central crescer para para R$ 47,5 bilhões no ano passado, 254% a mais do que o de 2006; b ) o mesmo acúmulo de reservas, que hoje são da ordem de US$ 190,5 bilhões, é excessivo desde o final de 2006, e não deveria ser superior a US$ 90 bilhões; c) o investidor bilionário WARREN BUFFET divulgou que a sua empresa “Berkshire” lucrou, recentemente, cerca de US$ 100 milhões apostando no real contra o dólar.

O que tem isso a ver com o câmbio “flutuante” ?

Aparentemente tudo: foi o nosso regime cambial atual que permitiu que um grande investidor internacional ( um entre muitos ? ) especulasse lucrativamente contra o real; que acumulássemos mais do que o dobro dos dólares de que necessitamos e que o Banco Central tivesse um prejuízo equivalente a cerca de US$ 27 bilhões.

Consta que os membros da área econômica do governo estão estudando a possibilidade de criar um “Fundo Soberano”, similar aos já existentes em outros países, que serviria para ajudar a enfrentar essas dificuldades. Mas a solução, mesmo, ao que me parece, dependerá da alteração do nosso sistema de câmbio flutuante.

Ocorre que o câmbio flutuante é considerado um dos principais fatores da confiança que os investidores têm, atualmente, no Brasil, sendo difícil, portanto, alterá-lo , pois todos os brasileiros sabemos que “não se mexe num time que está ganhando” .

A verdade, porém, é que esse sistema de câmbio nos impede de ter o controle da situação e nos torna presas da especulação cambial, embora o regime de taxas fixas de câmbio, que já aplicamos, tradicionalmente, em várias ocasiões, também suscite dificuldades já que as pressões atuais se exerceriam, na prática, de modo semelhante e estaríamos sujeitos, por outro lado, a grandes equívocos e a decisões erradas e demagógicas.

Do ponto de vista estritamente teórico, porém, as taxas fixas de câmbio, que são nominais, são mais corretas do que as taxas flutuantes, que são “reais”. Através das taxas fixas cada Estado nacional exerce a sua soberania monetária, estabelecendo uma relação de dominação da moeda nacional sobre a moeda estrangeira. No caso da taxa flutuante, ao contrário, o país parte de uma convicção errônea – a de que há um “valor real” em torno do qual deve girar o câmbio – e se entrega, num laissez faire, à deliberação do mercado internacional, dominado por poucas pessoas.

O momento propício parece conveniente para alterarmos o sistema de taxas flutuantes e passarmos para o sistema de taxas fixas de câmbio, especialmente porque o sistema de taxas flutuantes valorizou o real. Quando a moeda nacional está fraca os governos sofrem a tentação de melhorar a sua posição financeira internacional através da manipulação da taxa de câmbio,o que faz surgir um câmbio paralelo que reflete melhor o nível relações comerciais da moeda nacional diante da moeda estrangeira predominante.

Hoje, porém – e esse é um fato novo – não há uma moeda “padrão” internacional, como o foram, numa época, o ouro, a libra e o dólar, porque este último perdeu sua posição.

Em conclusão : suponho que em decorrência da desvalorização do dólar e da valorização do real o Tesouro nacional brasileiro irá, em breve, além de estimular a criação de um Fundo Soberano, optar pela volta ao sistema de taxas fixas de câmbio, estabelecendo, quem sabe, a cotação inicial em R$ 1,80 por dólar.


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