OS QUINZE ANOS DO REAL

A discussão atual sobre o câmbio está encerrando o pensamento dos economistas numa espécie de círculo vicioso ( do tipo “o real sobe porque o dólar desce”) e é travada como se o “derretimento” da moeda americana seja um fenômeno global e nada pudéssemos fazer para detê-lo. Ao lado disso surgiu, de novo, o temor de que os juros internos voltem a ser elevados pelo Banco Central brasileiro. A pretensão deste texto é tentar dar uma explicação “institucional” para o que anda ocorrendo e ajudar a romper alguns impasses que rondam as atuais reflexões dos analistas econômicos.

Para começar é preciso deixar claro que nada do que ocorre na Economia é “natural”, como muitos analistas econômicos imaginam. O Mercado não é um força da natureza mas uma complexidade de normas que traduzem negócios e decisões das empresas e do governo, nos planos nacionais e internacional. Tudo dependerá, pois, do que façamos ou deixarmos de fazer: nada, em finanças, se resolve por si mesmo.

O fato de o dólar estar “derretendo” – o que decorre, é preciso dizê-lo, em grande parte, da quantidade fabulosa de recursos que os EUA jogam todo o dia fora com a guerra do Iraque – e a circunstância de as “commodities” estarem subindo de preço no mercado internacional não são a única explicação para a valorização atual do real.

Somos diferentes dos demais exportadores de insumos pois nenhum deles tem, como nós, mecanismos financeiros herdados de um período de hiperinflação que tornam o Brasil de hoje no “ país em que se ganha mais dinheiro do mundo” ( como disse, recentemente, um economista aos jornais).

O movimento atual de “minivalorizações” do Real corresponde, mutatis mutandi, à política anterior de mindesvalorizações na nossa moeda, com a diferença de que este último era compulsório ( e predominantemente interno ) e o primeiro resulta de pressões do mercado ( e é predominantemente externo ) .

Ao falarmos, porém, em “mercado” não estamos tratando do mesmo fenômeno que existe em outras Economias, pois os nossos juros são tabelados e andam juntos com “indexadores” (como a TR, por exemplo ) que continuam a ser compulsórios.

Para superar as dificuldades atuais que muitas empresas exportadores estão sofrendo em decorrência da valorização do real e começar a enfrentar os demais problemas causados pela baixa exagerada do dólar ( e a correspondente manutenção dos níveis elevadíssimos dos juros) é preciso reestruturar o nosso sistema financeiro, tratando-o segundo os critérios que regem esse setor nos demais países do mundo, isto é, acabando com a SELIC, com a TR, e com qualquer outra forma de indexação compulsória remanescente.

Essas providências não precisam constituir-se num “choque econômico”, nem produzirão resultados mágicos. Mas elas são indispensáveis para que comecemos a cuidar no nosso mercado financeiro com mais seriedade, não deixando que ele permaneça como um bordel de prazeres para os especuladores, como é atualmente.

Não nos faltam economistas capazes, que conseguiram, por sinal, numa época, deixar de lado as suas vaidades pessoais e reunir-se, embora de escolas diferentes, em torno de um mesmo projeto – acabar com a correção monetária – do que resultou o plano real. É preciso que eles –ou seus seguidores mais jovens – agrupem-se, de novo, para impedir que a valorização do real e a taxa de juros que nos é imposta pelo Banco Central atrapalhem o desenvolvimento tão promissor da nossa Economia.

O plano Real, que vai fazer 15 anos em 2009, conseguiu livrar o Brasil do “dinheiro paralelo” que levou ao descontrole da moeda nacional, obrigando-nos a promover várias reformas em cerca de uma década ( Cruzado, Cruzado novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real ), mas deixou vivos alguns cacoetes com os quais nos acostumamos e nos tornam vulneráveis hoje diante dos especuladores em geral.

Como foi utilizado um artifício – a Unidade Real de Valor – para “converter”, na nova moeda, as obrigações monetárias em cruzeiro real, acabamos não tendo ( como até hoje não temos ) um fator de conversão das dívidas anteriores ao real, o que eterniza o seu reajustamento.

Por outro lado ao “transformarmos” a TR em SELIC, e ao mantermos viva a indexação no sistema financeiro nacional, perpetuamos procedimentos que só tinham sentido ( se é que tinham ) no regime anterior a 1994.

Isso tudo já devia ter acabado há muito tempo, mas vamos levando com a barriga, achando que as coisas se resolverão por si, e, como elas não se resolvem, tendemos a crer em que elas não são um problema, propalando um otimismo que produz dividendos eleitorais mas impedem o crescimento sustentado ( ou, pelo menos, “mais” sustentado ).

Aproveitemos o aniversário do real em 2009 e tomemos, a partir de agora, todas as medidas complementares à sua implantação definitiva que se impôem !


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