NÃO HÁ ECONOMIA REAL

Os economistas e os analistas econômicos estão muito confusos diante da crise monetária pela qual passam os EUA atualmente, da qual já resultou a quebra de um grande banco que, para não falir, foi socorrido com dinheiro público.

Tomemos, como exemplo dessa hesitação dos economistas, a entrevista de hoje que John Williamson, do Peterson Institute for International Economis, concedeu à jornalista Luciana Rodrigues, do GLOBO, em que ele diz, em dois momentos:

“Até agora, esta é uma crise financeira. Não é uma crise que esteja afetando os setores reais da economia…”

“No resto da economia, ainda não apareceu esse problema ( restrições ao crédito ). É exatamente por isso que eu não acredito que se trata de uma crise geral.”

Essa é, mutatis mutandi, a linha do raciocínio dos economistas: a crise não é geral, e sim financeira, e não chegou, ainda, a afetar a economia real.

O grande problema, porém, é que não há uma economia real diversa da economia monetária: ou seja, a crise dos EUA é, sim, uma crise econômica, geral e eles não estão sabendo, ainda, o que fazer, para debelá-la.

Ao dizer que não há uma economia real não estou querendo dizer que não haja uma realidade, e que a restrição ao crédito não vá provocar desemprego e queda na atividade industrial, agrícola e de serviços.

Não há economia real no sentido de que ela se “expressa” – digamos assim – através de valores e esses valores não são do plano da realidade.

O fato novo desta crise que a torna diferente das demais – e são citados como exemplo as crises asiática, de 1997 e da América Latina, da década de 1980 – consiste em que ela é uma crise geral de valores, tomada a palavra valor nos seus dois sentidos mais comuns, monetário e moral.

Os EUA estão em crise porque o ultra direitistas que tomaram o poder há 8 anos apostaram tudo num projeto de domínio hegemônico por mais 100 anos e conseguiram, apenas, mostrar ao mundo, afinal, que a sua potente força bélica ( a mais forte que a História já conheceu ) não é suficiente para impor ao “resto” do mundo um way of life que não tem mais conteúdo cultural, como parecia que tinha, há poucos anos atrás.

A presidência Bush é o exemplo do que se pode chamar uma “inversão de valores”: a começar pelo Chefe de Estado e de governo, que é um desclassificado, moralmente falando.

A guerra do Iraque, o uso da tortura, a violência sem controle praticada pelos mercenários terceirizados , as despesas militares de mais de um trilhão de dólares – e a tentativa de os republicanos defenderem, perante os eleitores, o acerto de suas decisões – isso tudo mina, rapidamente, o respeito que o Estado americano desfrutava internamente e diante dos demais países, com reflexos inevitáveis sobre os valores econômicos.

É o que explica, também, porque os países que compõem o chamado “BRIC” – Brasil, Rússia, Índia e China – não vão sofrer crise idêntica, pois eles representam uma novidade viável diante do “ocidente”. O que não impede que não precisemos nos defender em face de eventuais medidas financeiras que os EUA queiram tomar em nosso prejuízo.

Se admitirmos simplificar exageradamente a questão americana atual podemos dizer, portanto, que a crise geral pela qual eles estão passando existe porque George W. Bush ainda está na Casa Branca, dançando de contentamento quando foi visitado por John McCain, e sorrindo forçadamente na foto de hoje dos jornais ao lado de carrancudos Bernanke e Paulson, para dar a impressão (segundo a legenda) de que “a economia ficará bem”.

Assim como não se pode separar a economia “real” da economia monetária não podemos analisar, destacadamente, os problemas econômicos e os problemas jurídicos, políticos e institucionais de uma nação.

O sistema presidencialista americano demonstrou, por exemplo, que não pode sobreviver nos mesmos moldes em que tem existido até hoje, qualquer que seja o próximo presidente eleito.

Essa é uma das lições da crise americana, que ainda não foi bem entendida pelos analistas.

De qualquer modo, se nos ativermos, apenas, aos aspectos monetários do problema americano, e diante das medidas radicais que estão sendo tomadas pelo FED, podemos supor que os EUA, para encaminhar as soluções para a sua atual “crise de valores”, terá de passar por um período prévio de grande inflação.


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