CASSINO INTERNACIONAL

Vale a pena ler a entrevista de HEINER FLASSBECK, economista chefe da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento ( UNCTAD ), concedida ao correspondente do Estadão em Genebra, Jamil Chade, intitulada: “Brasil está sendo vítima de cassino internacional” em que o ex-ministro das Finanças alemão desmascara as ilusões de que a valorização do Real decorra, somente, da pujança atual da Economia brasileira.

Segundo ele “ a valorização da moeda brasileira está sendo resultado não apenas dos bons fundamentos da economia do País mas, principalmente, da entrada de capital externo em busca de ganhos com a taxa de juros”, situação essa “que não é sustentável para as exportações brasileiras a médio prazo”.

O entrevistado não oferece – nem lhe caberia mesmo fazer – a solução para esse problema, que nós mesmos devemos resolver o que, porém, diga-se de passagem, não é difícil fazer.

Mesmo sem mudar o regime de câmbio flutuante – que, por sinal, tem inúmeras qualidades positivas –, e sem congelar os juros, o Banco Central e o ministério da Fazenda, unidos, podem atuar diretamente sobre o Real, para fortalecê-lo institucionalmente.

Há uma peculiaridade da ordem monetária brasileira que tem exigido a manutenção dos juros nas alturas e provocado a falta de controle do câmbio, que pode ser eliminada rapidamente para consertar na nossa anômala situação atual.

O Brasil, diversamente dos outros países como ele emergentes, teve uma experiência única no mundo – a “esquizofrenia monetária” – posta em prática com ajuda da ditadura militar de 1964, que levou o país à uma hiperinflação no final da década de 1980, que consistia na vigência simultânea de “duas moedas” oficiais e compulsórias, o dinheiro legal, por um lado, e a correção monetária, por outro.

Para acabar com essas duas moedas tivemos que editar, no espaço de uma década, vários planos econômicos – Cruzado, Verão, Bresser, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro Real e Real – mas não chegamos a completar essas reformas, pois deixamos abertas diversas brechas no último desses planos, que são a causa institucional de os juros e o câmbio estarem anormais hoje em dia.

O curioso é que essa situação – com a honrosa exceção, apenas, do ex-ministro Bresser Pereira – não é citada como um dos principais motivos da anomalia atual, que nos transforma, segundo Flassbeck, num cassino internacional.

A valorização do Real é anômala, mas pode ser consertada pelo governo do presidente Lula, o que deve ser feito o mais rapidamente possível, enquanto o ambiente nacional está tranqüilo, e antes que o problema se agrave ainda mais.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.