O PROBLEMA PODE NÃO SER O CRÉDITO

Manchete na primeira página do GLOBO de hoje informa-nos, com base em declarações de assessores do Ministério da Fazenda, que haverá uma redução de crédito que excluirá, porém, os chamados “empréstimos para casa própria” o que, a meu ver, pode ser uma medida contrária ao que, efetivamente, deve ser feito, já que a ameaça da inflação pode não provir do crédito, mas da moeda em si.

Vamos por partes. Para começar parece não haver dúvida de que há, efetivamente, uma ameaça de inflação diante da qual divergem os técnicos do Ministério da Fazenda e do Banco Central, estes querendo aumentar os juros e os primeiros querendo atuar sobre a expansão do crédito, ambas as medidas julgadas inadequadas pela iniciativa privada.

A Indústria – diz o Estadão – considera a restrição de crédito um erro de avaliação, negando que a demanda esteja superaquecida e pressionando a inflação para cima. Afirma, a propósito, PAULO SKAF, presidente da FIESP, que “essa conversa de escassez de oferta é bobagem”. O economista REINALDO GONÇALVES, da Universidade Federal do Rio Janeiro, por sua vez, acha essa coisa toda um comportamento de “barata tonta”, entendendo que o governo , nesses casos, sempre “erra na dose”.

Aumentar os juros, na verdade, pode agravar a já delicada situação do setor exportador, especialmente em face da redução das taxas usurárias nos EUA, pois dos dólares chegarão aqui aos borbotões, em busca dos lucros proporcionados pelo “cassino internacional” a que me referi no texto anterior. Restringir o crédito, por sua vez, como imagina fazer o Ministério da Fazenda, pode ser matar a galinha dos ovos de ouro e impedir o crescimento que decorre do ingresso no mundo do consumo de uma grande parte da população brasileira que estava, até agora, dele marginalizada.

De qualquer modo, não se explica porque excluir dessa hipotética restrição ao crédito o mercado imobiliário, quando é ele, hoje – regulado por uma Lei anômala – um dos principais fatores de ampliação da indexação e, conseqüentemente, da perda de controle da moeda nacional, que gera a inflação.

Parece estar faltando ao governo, neste momento, além de tentar harmonizar os pontos de vista, respectivamente, do Ministério da Fazenda e do Banco Central a capacidade de promover o ajuste que se impõe na estrutura da ordem monetária dando conseqüência às medidas do Plano Real que , no final da década de 1990, ainda no governo FHC, sofreram interrupção.

O problema pode não ser o crédito, mas a moeda, e o que se tem a fazer, como PAUL KRUGMAN recomenda em relação aos EUA ( no artigo “Farreando como se estivéssemos em 1929 ) é colocarmos “o sistema financeiro sob controle”, disciplinando a Norma Monetária Fundamental para que a economia brasileira possa crescer livre, mas ordenadamente.


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