MOEDA E PODER AQUISITIVO

ADAM SMITH deu um passo gigantesco ao perceber que as peças monetárias não valiam pelo que eram em si, mas pelo que elas podiam comprar. Diz ele, a propósito, em seu livro Riqueza das Nações: “it would be too ridiculous to go seriously to prove that wealth does not consist in money or in gold and silver, but in what money purchases, and is valuable only for purchasing ” o que, traduzido livremente para o português, significa o seguinte:

“Seria ridículo tentar provar, seriamente, que a riqueza não consiste no dinheiro, no ouro, ou na prata, mas naquilo que o dinheiro compra, e é valioso apenas por poder comprar”

A frase de ADAM SMITH foi formulada numa época em que as peças monetárias – às quais ele se refere como o dinheiro, o ouro e a prata – eram em quantidade menor ( porque eram de metal ) do que a possibilidade praticamente infinita de a riqueza poder comprar mercadorias e serviços.

Isso foi, porém, no final do século XVIII, em 1776, quando a obra foi publicada.

Hoje, quando as peças monetárias não são de metal, e não têm limites físicos para ser emitidas, temos excesso mundial de papel moeda e limitação da nossa capacidade de comprar serviços e mercadorias essenciais, de modo que parafraseando ADAM SMITH poderíamos afirmar que se tornou ridículo continuar dizendo que o dinheiro tem valor apenas porque pode comprar mercadorias.

Uma demonstração disso pode resultar da conjugação de duas notícias do caderno de Economia do GLOBO de hoje: na primeira delas, lê-se que Bill Gates, na abertura da reunião anual do BID, propõe que empresários passem a empregar um “capitalismo criativo”, que consistiria em “as empresas e pessoas mais ricas fazerem doações que sejam utilizadas como investimentos para melhorar efetivamente a vida das pessoas”; na segunda vê-se que os EUA estão decididos a construir um “escudo antimísseis na Europa” que o presidente PUTIN considera uma provocação ao seu país.

Parece claro que o tal escudo antimísseis de BUSH, uma versão do sistema de “guerra nas estrelas” que tanto encantava o presidente REAGAN, servirá para que o complexo industrial militar americano/europeu feche contratos bilionários pelos próximos 50 anos pelo menos, sem os desperdícios de uma guerra de verdade. Por outro lado fica igualmente claro que BILL GATES acha que as empresas e os empresários têm dinheiro de mais sobrando e que deviam usar uma parte dele para ajudar a melhorar a vida das outras pessoas no resto do mundo.

Tanto no caso do escudo antimísseis do governo americano, como da proposta de doações de BILL GATES, o dinheiro está sendo cogitado como um fomentador de condutas, como um instrumento de organização social e não como meio de compra de bens e serviços( sem prejuízo de as pessoas que vão receber o dinheiro em decorrência desses projetos poderem, eventualmente, comprar bens e serviços, se não preferirem aplicá-lo no mercado financeiro).

O fato é que o poder aquisitivo, que ADAM SMITH julgava ser a chave para compreender o significado do dinheiro, não tem mais esse atributo, nesses nossos tempos em que as peças monetárias de papel circulam na Economia Mundial em quantidades astronômicas. Não havendo mais tantas coisas essenciais para comprar as peças monetárias devem ter dois novos destinos: ou servir para diminuir as desigualdades, como propõe, pela esquerda, BILL GATES, ou para defender a liberdade, como dizem ( mentirosamente, a meu ver ) pela direita, os EUA.


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