A REVOLTA DOS AQUISITÍVEIS

Aquisitível é um termo que acabei de criar para significar algo que pode ser adquirido, como os alimentos, por exemplo, que estão sendo acusados, agora, segundo os jornais, pelo presidente do BIRD, ROBERT ZOELLICK, como os maiores responsáveis pela inflação mundial.

O discurso de ZOELLICK – que aparece numa foto do Estadão, segurando em uma das mãos um saco de arroz, com dizeres em inglês, e, na outra, um apetitoso pão tipo italiano – não é tão ruim quanto parece à primeira vista, mas é ambíguo e parte de uma premissa errada.

Ele é ambíguo na medida em que recomenda a instituição de um “New deal para a alimentação global” mas sugere, ao mesmo tempo, que os pobres esperem ainda um pouco para comer mais ( contra o que insurgiu-se o presidente Lula ao dizer que os alimentos estão mais caros porque tem mais gente comendo ).

Por outro lado, ele parte de uma premissa errada ao insinuar que a inflação decorre de “causas reais” e ao pressupor que a moeda tenha poder aquisitivo.

A inflação mundial atual não decorre do aumento do preço das commodities, mas da falta de controle do dólar, por parte das autoridades monetárias americanas ( embora os investimentos especulativos nas bolsas mundiais de mercadorias, possam influir nesse descontrole ). Quanto ao poder aquisitivo ele não é valor, sendo um mero indicador de que está havendo alteração nos níveis de preços.

A versão ideológica da noção de poder aquisitivo que, através do conceito de valor de troca, chegou até nós pela mão (nesse caso visível ) de ADAM SMITH, provém de ARISTÓTELES, que se refere, no livro Política, à “capacidade aquisitiva” a qual, segundo ele, “foi dada evidentemente por natureza a todos os animais”, e deu origem à crematística.

Hoje, porém, o poder aquisitivo perdeu o sentido que tinha no tempo de ADAM SMITH pois há mais dinheiro e crédito em circulação do que bens e serviços em condições de aquisitividade: e é a esse fenômeno novo que estou denominando a revolta dos “aquisitíveis.

Chamo-o de revolta, porque ele leva em conta o fato de que depois que os famintos do mundo começarem a comer eles podem se acostumar e ficar chateados se os países ricos quiserem tirar-lhes o pão da boca.


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