HERANÇA MALDITA ?

O ex ministro PEDRO SAMPAIO MALAN, em artigo intitulado “Grau de confiança, grau de respeito”, publicado no Estadão de domingo, procura mostrar o quanto foi feito no governo FHC para criar as condições de que o governo LULA inteligentemente se aproveitou para estar sendo tão bem sucedido nas áreas econômica e social.

Lembra o articulista o nome dos membros da equipe que conseguiu debelar a hiperinflação brasileira ( produto de uma inflação que, segundo ele, foi a maior de todos os tempos na História, entre os anos 1963 e 1993, período que corresponde à vigência da correção monetária ), dentre os quais Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco, Francisco Pinto e Murilo Portugal, que conseguiram formular e implantar o Plano Real que mudou, efetivamente, o Brasil.

O texto do ex ministro é muito esclarecedor, especialmente quando ele rememora os passos que, em grande parte sob a sua liderança, foram dados antes que o Real pudesse se implantar: reestruturação do Tesouro Nacional, fim da conta movimento, programa de privatização, abertura da economia para o exterior, autonomia operacional do Banco Central, renegociação da dívida externa do setor público, renegociação da dívida de 25 Estados e 180 municípios, instauração do regime de metas da inflação, taxas de câmbio flutuante, início operacional dos programas de transferências diretas de renda para a população mais pobre e aprovação pelo Congresso da crucial Lei de Responsabilidade Fiscal.

Como um sub-produto, talvez indesejado, o artigo revela o caso raro na História de um político que foi, efetivamente, um bom presidente da República, mas se transformou num péssimo ex presidente, na medida em que não conseguiu livrar-se da tentação de mergulhar no dia a dia da intriga política, ao invés de se preservar para os grandes momentos, em que o respeito que ele conquistou pudesse ser invocado.

Uma das atuações de Cardoso poderia ser a de fazer, agora, uma autocrítica – que, aliás, PEDRO MALAN no seu artigo também não fez – e reconhecer as falha estruturais do Plano Real, a saber:

a) – ausência de uma norma de conversão das obrigações monetárias em cruzeiros real que passaram a ser expressas em real.; b ) – a manutenção da SELIC, como um misto de taxa de juros e indexador de correção monetária; c ) – a preservação da correção monetária anual dos contratos e d) – a exclusão de certos setores ( especialmente o Judiciário e o Sistema Financeiro ) do processo de Desindexação da Economia.

FHC e MALAN deixaram de fazer na sua época o que agora, cerca de quinze anos depois do Real, ainda nos atormenta e causa os aparentemente insuperáveis problemas de câmbio e de juros altos: problemas esses que não deixam de se constituir numa “herança maldita”.


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