INDEXFLAÇÃO

A “indexflação” é um fenômeno tipicamente brasileiro que consiste na simbiose da inflação com a indexação.

Houve um período, imediatamente posterior ao Ato Institucional n. 1, de 1964, em que a indexação era apresentada ao público, pelo governo, como se fosse um remédio contra a inflação, que permitiria aos agentes econômicos – metaforicamente falando – uma convivência com a doença inflacionária.

Algum tempo depois, na fase da redemocratização, percebeu-se que as coisas não eram bem assim e que a indexação, ao contrário do que antes se pregava, não era um remédio para debelá-la, mas uma das causas da própria inflação, surgindo daí uma série de pacotes e planos monetários que começaram com o Cruzado e terminaram com o Real, todos visando, essencialmente, a desindexação da economia e o retorno ao princípio nominalista.

O Plano Real – que faz, no ano que vem, 15 anos – foi, como se sabe, um sucesso, mas deixou algumas brechas que são hoje responsáveis pelo risco de indexflação : em primeiro lugar, ele usou um artifício, chamado Unidade Real de Valor, para “converter” as obrigações anteriores indexadas em obrigações novas ( que continuaram variáveis ) ; em segundo lugar, ele não desindexou os créditos que circulam no mercado financeiro nem acabou com a correção monetária judicial, deixando, ainda por cima, aberta uma porta para a reindexação periódica, ao permitir que os contratos pudessem ser anualmente reajustados por índices de preços setoriais.

Quando a URV promoveu uma “conversão” de indexadores em novos indexadores ( e não de obrigações nominais expressas numa moeda para obrigações nominais expressas na moeda subseqüente) ela abriu mão de acabar com a fluência da correção monetária, na esperança, talvez, de que com o curso do tempo, os problemas se resolvessem por si sós ( o que até hoje, porém, não aconteceu ). Por outro lado, a manutenção da indexação nos procedimentos do mercado financeiro deixou um setor importantíssimo da economia fora do processo de desindexação permitindo que, mais tarde, áreas limítrofes – como foi o caso do Sistema Financeiro da Habitação – reingressassem na ciranda financeira, em que presentemente de novo se encontram.

No tocante às dívidas judiciais, a crença, talvez, dos formuladores do Plano Real, era de que o Poder Judiciário encontrasse os seus próprios caminhos para resolver os casos pendentes ( e os “esqueletos do armário”) e promovesse uma transição pacífica para o Real dos débitos expressos nas moedas e nos indexadores anteriores, o que, contudo, o Judiciário não conseguiu fazer, de modo que não morreu a expectativa dos demandistas de que a inflação retorne e aumente para que eles possam ver crescer, também, a indexação de seus créditos.

Essa indexflação brasileira precisa ser debelada para que o país – que, no mais, vai indo muito bem obrigado – possa dar os passos que pretende dar em frente.

É claro que com ela nós, ainda assim, estamos conseguindo viver, como conseguimos viver com a correção monetária, e com a hiperinflação.

Mas vivemos pior, e a nossa evolução é muito mais difícil e cheia de sacrifícios.


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