DE NOVO, A MOEDA ÚNICA

É muito positivo que o presidente LULA tenha assumido expressamente – como se viu hoje, na sua palestra semanal pelo rádio, a propósito da criação da Unasul – o discurso favorável à instituição de uma moeda única na América do Sul.

O fato é auspicioso não só porque LULA é o principal líder sul americano no poder, como porque ele não se referiu, apenas, à criação da moeda única, mas foi mais longe ao propor, concretamente, a instituição, ao mesmo tempo, de um Banco Central Comum regional , que será o órgão emissor e controlador dessa moeda.

Pelo que se percebe a idéia da moeda única do MERCOSUL, que não se concretizou – nem mesmo na sua versão mais limitada de um dinheiro regional apenas do Brasil e da Argentina – ganha uma nova amplitude o que é muito bom, embora tenha um aspecto preocupante, pois, como disse ontem, numa entrevista à televisão, o embaixador MARCOS AZAMBUJA, pode configurar uma “fuga para adiante”.

A fala de hoje do presidente brasileiro ,no seu programa radiofônico, apesar da sua inegável importância, contem a ressalva de que a moeda única “ é um processo, não é uma coisa rápida” o que, de certo modo, constitui uma ameaça à sua viabilização.

Com efeito, para que um grupo de países de uma região institua uma moeda única comum é preciso que, nessa região, seja identificada uma” área monetária ótima” e que seja instituído um Instituto Monetário, como embrião do futuro Banco Central, e essas duas condições têm uma natureza predominantemente econômica. Mas é preciso, também, que haja a consciência “institucional” de que a moeda única não é uma aspiração meramente programática, mas, ao contrário, que tem um papel político e jurídico, integrador e pacificador na região.

Parece-me perigoso pensar-se na moeda única regional como o coroamento, apenas, de um processo econômico de integração e não como um instrumento institucional inerente ao desenvolvimento desse processo.

Quando os europeus, cansado das guerras em que quase se autodestruíram no século XX, decidiram constituir uma União Européia, eles queriam, desde o início, ter uma moeda única, porque sabiam que países, que muito se odiaram ( como, especificamente, a Alemanha e a França ) seriam compelidos a conviver pacificamente se ficassem subordinados a uma moeda e a Banco Central comuns.

A moeda única, portanto, não deve ser pensada, como sugeriu o presidente LULA, como o fim de um processo longo – porque isso pode significar transferir para “jamais” a execução do projeto – mas como a semente de uma integração pacífica, tão importante, ou mais, do que o Conselho de Defesa Regional.

No mundo globalizado de hoje as moedas comuns – e os Bancos Centrais regionais – podem desempenhar um papel na organização internacional dos Estados nacionais mais preciso do que os Tratados tradicionais. O dinheiro tem se mostrado capaz, cada vez mais, de organizar, rapidamente, as sociedades contemporâneas; embora possa sair facilmente do controle dos governos que o emitem.

A moeda – que é um fenômeno tipicamente nacional – depende, para internacionalizar-se, do funcionamento de um Banco Central mundial ou, enquanto isso não for possível, de vários bancos centrais regionais.

De qualquer modo, é a vigência desse novo contexto que o presidente LULA, louvavelmente, está profetizando, quando se refere à necessidade de a Unasul se transformar – ainda que em parte – numa futura União Monetária Sul Americana.

A sua capacidade de convencimento será um inegável fator de sucesso na campanha pela instituição de uma moeda comum e de um Banco Central regional na América do Sul.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.