O RABO E O CACHORRO

Na entrevista de ontem do programa Roda Viva, da TV Brasil, o presidente do Banco Central brasileiro, HENRIQUE MEIRELLES, tornou pública a atual dimensão da correção monetária ainda vigente em nosso país, ao dizer que 1/3 da Dívida Interna ( pública e privada ) está vinculada a diversos indexadores, especialmente à variação da SELIC.

A indexação ainda abrange hoje, portanto, cerca de um terço da economia monetária brasileira, o que explica, em grande parte, a nossa crescente inflação, e nos indica o melhor caminho para debelá-la.

O simples aumento das taxas de juros, defendido pelo presidente MEIRELLES, pode não ter o efeito desejado, e, pior do que isso, se não forem tomadas as medidas jurídicas adequadas, pode ter o resultado inverso, de agravar a instabilidade dos preços.

No tocante à diminuição das despesas do aparelho governamental, trata-se de uma cobrança feita pela oposição de uma forma muito genérica; quanto à redução do crescimento do crédito ela é, a esta altura, praticamente inviável, pois o crédito está possibilitando a inclusão na Economia de um número imenso de pessoas que não podem ser afastadas do “bolo” quando ele, afinal, começou a crescer.

Para saber o que fazer temos começar constatando que vivemos uma situação peculiar no Brasil, diferente da que existe no resto do mundo em termos de incremento da inflação. Trata-se daquilo que eu tenho chamado de “indexflação”, um misto de inflação e de indexação, ambas, mesmo isoladamente,uma grave ameaça à estabilidade dos preços, quanto mais unidas.

A indexflação nos faz correr o risco de não conseguir, com o simples aumento dos juros, segurar a instabilidade dos preços pelo lado da inflação e, ao mesmo tempo, pelo lado da indexação, prejudicar a estabilidade.

Estamos caminhando, a passos largos – e a magnitude de um terço da dívida, fornecido pelo presidente do Banco Central, e uma prova disso – para a recriação de um grande indexador nacional, que acabará sendo colocado num nível hierárquico superior ao da própria unidade monetária.

Pode acontecer, portanto, no Brasil, num prazo relativamente curto o que já ocorreu conosco na época que precedeu a hiperinflação: ao invés do cachorro balançar o rabo, o rabo começar a balançar o cachorro.

Saí convencido da entrevista de HENRIQUE MEIRELLES de que os juros vão continuar a subir mas que eles não serão suficientes para evitar o aumento da inflação, tanto mais que um dos itens mais importantes para a apuração dos níveis de preços – os preços do petróleo – estão hoje congelados, por imposição do governo à PETROBRÁS.

Nem tudo, porém, a meu ver, está perdido.

O nosso grande problema atual não é mais o da dívida externa, e temos reservas monetárias de cerca de 200 bilhões de dólares, suficientes para pagar tudo o que o setor público e o setor privado devem no exterior, além de termos recebido gráus de investimento fornecidos por agências internacionais de risco.

O enfrentamento da inflação depende, pois, essencialmente, de arranjos internos, de uma ação conjunta dos três Poderes da União – já que a participação do Judiciário, sob a presidência, hoje, de um jurista que conhece Direito Monetário, é indispensável – para que a ordem monetária brasileira seja definitivamente normalizada.

Não se pode deixar, porém, o tempo passar, pois a ameaça de inflação e de desestabilização monetária é premente.


1 comentário até agora

  1. Flavio Jansen junho 18, 2008 3:00 pm

    Em relação a despesas de governo, o primeiro passo é simples, que se mantenham estáveis ou com crescimento pequeno em termos nominais. O que tem acontecido é que elas tem crescido acompanhando o aumento da arrecadação, na base do vamos gastar tudo que temos, que é, em última instância, uma politica inflacionária. A sugestão é que se limite o aumento do gasto público, reduzindo o crescimento e consequentemente a pressão inflacionária de demanda. Além disto, historicamente o crescimento de gastos públicos no Brasil vem acompanhado de desperdício e de aumento de corrupção.
    A sugestão de ampliação do superavit (na realidade redução do deficit nominal) primario vem auxiliar o combate da inflação por minimizar o aumento da demanda governamental.

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