INDEXAÇÃO DO TRABALHO E DO CAPITAL

A divisão do mundo econômico em capital e trabalho, embora simplista, pode ser um argumento para tentar explicar o combate que se trava, atualmente, na mídia brasileira, contra a indexação.

Muitos dos que, na imprensa, se rebelam, são contrários, apenas, à indexação automática e compulsória das rendas dos assalariados ( que foi, de resto, salvo no caso do salário mínimo, a que o Plano Real, na verdade, extinguiu) .

Contra a indexação do capital não há tanta gritaria, não só porque ela não foi inteiramente eliminada pelo Real, de 1994 como porque há analistas que parecem pensar que esse tipo de correção monetária é saudável e pode ser administrado pelas forças do mercado.

Começa, contudo, a ficar claro que a gravidade do problema da indexação é superior aos interesses conflitantes do capital e do trabalho pois afeta a ordem monetária como um todo.

Numa tese de doutorado apresentada à Universidade de Brasília o economista MANOEL CARLOS PIRES, do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, demonstrou que a composição da dívida pública compromete a eficácia da política monetária, já que a ampliação do volume de títulos públicos atrelados à SELIC, em momentos de alta da taxa de juros como o atual, pode neutralizar, parcialmente, seus efeitos sobre o controle inflacionário.

“Trocando em miúdos”, escreve, a respeito, o jornalista SÉRGIO GOBETTI do Estadão, “ quanto maior a proporção de títulos indexados à SELIC e menor a proporção de títulos prefixados, menor é o efeito de uma alta de juros sobre os preços” ou, em outras palavras, elevar a SELIC, como promete fazer o nosso Banco Central, pode ser um tiro pela culatra no combate à inflação.

Como as questões jurídico econômicas tendem sempre a ser debatidas pela sociedade em termos políticos – porque estão em jogo vários interesses muitas vezes contraditórios dos diversos grupos sociais – os partidos mais à direita tenderão a fazer campanha, somente, contra a indexação dos salários e dos vencimentos dos servidores públicos. Quanto aos partidos mais à esquerda a sua tendência parece ser a de ficar calados, não só porque os esquerdistas, em geral, não gostam de discussões sobre a moeda (que lhes parece algo sujo, por definição) como porque o discurso oficial é de que está havendo um exagero da mídia ao tratar da inflação, para influenciar, negativamente, a performance do PT nas próximas eleições municipais deste ano.

O PT precisa entender, porém, que o Brasil é um país cada vez mais monetizado, de modo que os seus preconceitos ideológicos ( católicos e marxistas ) contra o dinheiro podem obscurecer o seu conhecimento da realidade.

Não pode a esquerda brasileira se esquecer de que, depois de condenar o Plano Real ( que lhes parecia, na época do seu lançamento, um “pesadelo”) , foi a sua aplicação ortodoxa pelo ex ministro PALOCCI, e por HENRIQUE MEIRELLES, que permitiu ao PT ter o sucesso que teve na execução de seus programas de governo ( nem pode deixar de se lembrar do fracasso eleitoral do governador BRIZOLA depois que, em 1986, tentou desmoralizar o que o Plano Cruzado tinha de melhor).

A superação da nossa inflação não é um problema dos partidos, de esquerda ou de direita: é um desafio ao governo, a quem cabe zelar pela estabilidade de preços, ameaçada tanto pela inflação como pela indexação, sendo uma medida indispensável à preservação da governabilidade e da democracia. Eliminar a “indexflação” é fundamental, portanto, para a sustentação do governo LULA nos próximos dois anos e meio.


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