A POLÍTICA DE SEGURANÇA NO RIO DE JANEIRO

Vale a pena transcrever as entrevistas da cientista social SILVIA RAMOS e do consultor de segurança RODRIGO SOARES, ao jornal O Estado de S. Paulo de hoje, a propósito do assassinato, na Tijuca, do menino João Roberto Amorim Soares.

a) Diz SILVIA RAMOS, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania:

“Nesse caso, em especial, os ingredientes expõem o pior resultado da cultura policial que valoriza a morte do bandido, e não a segurança do cidadão. Quando policiais, caçando criminosos, dão 15 tiros no carro de cidadãos inocentes, a pergunta não é apenas sobre o disparate da tragédia. Devemos perguntar, também: era correta a lógica de dar 15 tiros no carro dos bandidos em fuga ?

Entre os policiais consolidou-se uma cultura de morte. Boa parte da sociedade carioca tem aplaudido as ações letais quando ocorrem nas favelas. Estamos colhendo os trágicos resultados dessa atuação.

É simples apontar o dedo para o policial que atirou, dizer que eles são truculentos e despreparadas. O problema é que tem havido, por parte do comando da Secretaria de Segurança, do governo, uma política de aplauso ao confronto. Mesmo os bons policiais acabam entrando nessa lógica. Nesse caso, se eles matassem quatro jovens do morro, a operação teria sido considerada um sucesso, heróica.

A atividade de polícia é uma atividade de produção de segurança e não de produção de morte. O uso da violência e força letal degrada e desvaloriza a polícia, os trabalhos de inteligência, prevenção, articulação da sociedade. No Rio, o policial que troca tiros é considerado eficiente e não o que desenvolve trabalho comunitário de prevenção.

b) Diz, por sua vez, numa outra entrevista, RODRIGO PIMENTEL, ex-capitão do BOPE:

“A polícia militar fluminense foi muito boa. Infelizmente hoje prender ou matar é mais importante do que manter vivo o cidadão. Nos últimos 45 dias a imprensa noticiou pelo menos cinco casos de inocentes que morreram por tiros disparados por PMs em via pública ( nessa conta estão Ramon Fernandes, de 6 anos, morto na Favela do Muquiço, durante perseguição a um traficante; o cantor gospel William de Souza Martins, de 19 anos, confundido com criminoso por policiais do 14º Batalhão de Bangu; o estudante Daniel Duque, de 18 anos, morto na frente da boate Baronetti, em Ipanema, por um PM que fazia segurança para a família de uma promotora e Brian Alves, de 8 anos, baleado na cabeça dentro de uma lanchonete na Cidade de Deus).

Na academia os policiais são ensinados que devem evitar atirar, se há risco para a população. Mas parece que os soldados estão seguindo uma espécie de orientação dos superiores de que o confronto é válido. Esse é o discurso da Secretaria de Segurança. O soldado não recebe sinalização nenhuma em contrário. Nos EUA a polícia fecha vias, persegue com helicópteros, mas não dispara.”

Quanto ao Governador e o Secretário de Segurança, acrescento eu, eles seguem a linha de BUSH, no início de seu governo: não demitem ninguém, não mudam nada, para dar a impressão aos seus eleitores de que estão no caminho certo, por mais errada que seja a sua política.


1 comentário até agora

  1. Flavio Jansen julho 8, 2008 5:32 pm

    As duas entrevistas são excelentes. Valem a reprodução no blog. Dão um caminho claro para discutir a questão.

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