CRÔNICA DE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

O assassinato do menino João Roberto pela polícia militar, como pretendo demonstrar a seguir, é o resultado da política de segurança posta em prática no Rio de Janeiro.

Tudo começou com a mega operação policial no Complexo do Alemão, quando o Secretário afirmou à imprensa que um “pacto silencioso de não-agressão” entre a polícia e os traficantes, teria sido quebrado, e que “não se faz bolo sem quebrar os ovos.”

Depois dessa operação no Complexo do Alemão , segundo fontes oficiais, o moral da PM ficou mais elevado, e o povo soube, pela boca do Secretário, que o governador lhe dera “carta branca” para fazer o que fosse necessário.

Quando a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, através de laudo produzido por peritos independentes, constatou que houve duas execuções sumárias e cinco provocadas por tiros à curta distância no Complexo do Alemão, o Secretário Beltrame mandou que o relatório fosse colocado no site da Secretaria mas, em nota, tentou desqualificá-lo, dizendo”que nenhum dos autores do relatório esteve no Rio para realizar qualquer diligência”. Nessa época o Secretário fora escolhido pela Revista VEJA ( edição Rio, ano 17, n. 46 ) como um dos “cariocas do ano”.

Numa entrevista ao GLOBO, comemorativa do primeiro ano de seu governo, o governador, por sua vez, considerou um mero “estresse” as críticas que recebeu dos órgãos nacionais e internacionais que lidam com os Direitos Humanos por conta da sua política de segurança. Em declaração divulgada pela televisão chamara os marginais do Complexo do Alemão de “verdadeiros terroristas”, e que a sua ação teria a finalidade de “ salvar os moradores dos marginais “belicosos”.

A política de segurança do Estado vem sendo tratada pelo Secretário e pelo governador, como uma “guerra do bem contra o mal”, tanto que a linguagem de “guerra” tornou-se uma constante nas declarações públicas dos dois. E essas palavras, proferidas pelas duas mais altas autoridades estaduais na área de segurança pública, foram entendidas pela polícia militar do Rio de Janeiro como um sinal de que ela estava envolvida, de verdade, num conflito bélico permanente contra a população em geral.

No início a guerra era contra os supostos bandidos, nos morros mas, pouco depois, a situação saiu do controle, e se tornou uma luta contra todos e qualquer um, inclusive as pessoas de classe média, em qualquer lugar da cidade.

Ao usar esse discurso o Secretário assumiu, a meu ver, o risco eventual de produzir o trágico resultado consubstanciado na morte do menino João Roberto. A sua demissão parece-me, portanto, ser a única forma de começar a reverter esse quadro.


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