SOBRE O RISCO DA INDEXAÇÃO

Em artigo hoje publicado, simultaneamente, no Globo e no Estado de S. Paulo, sob o título “Que inflação é essa ? “, o professor ILAN GOLFAJN escreve o seguinte, sobre o risco da volta da indexação no Brasil:

“ Não acredito que estejamos perto da volta ao passado de indexação que alimentava a inflação alta de décadas atrás. Houve muito avanço no passado recente, inclusive na aversão da sociedade à volta da inflação. Hoje em dia pode haver uma busca momentânea de recomposição de perdas de renda devida à inflação, e permitida pela situação econômica favorável no Brasil. Isso, porém, não vai levar à volta da inflação no passado, mas a um combate mais custoso para levar a inflação de volta à sua meta”.

Descartada a sua parte final – que é mero exercício de advinhação, com a qual não se deve perder muito tempo porque, como toda previsão do gênero, é aleatória, podendo ou não se confirmar na prática – o texto acima merece duas observações:

Ele é importante, na medida em que declara, com todas as letras, que “ a indexação (passada)alimentava a inflação alta de décadas atrás” e, pouco depois, após usar o eufemismo “ uma busca momentânea de recomposição de perdas de renda”, quando afirma que a indexação (futura ) vai exigir um “combate mais custoso para levar à inflação de volta à sua meta.”

Mas é equivocado ao minimizar os danos “institucionais” provocados pela indexação presente.

A indexação, diferentemente do que dá a entender o professor ILAN, não é uma questão que tem, apenas, reflexos na Economia. Ela é, também, um problema jurídico que não pode ser analisado, somente, sob o prisma econômico.

Parece-me um erro pressupor, como válida, a “recomposição” de perdas de renda devida à inflação”, porque é precisamente essa tentativa de recomposição que acabará levando os empregados privados e servidores públicos a tentar recuperar as chamadas “perdas salariais” que, se admitidas, acarretarão o aumento dos preços, causando mais inflação.

Nem devia o professor, a meu ver, abstrair-se do fato de que a indexação, no Brasil está latente na cultura da nossa sociedade, que não tem por ela a “aversão” a que ele alude em seu artigo, sendo, ao contrário, alvo, por parte dela, de uma grande paixão, fato cuja percepção levou o ex-ministro MALAN, de uma feita, a chamar o brasileiro de “homo indexatus”.

É verdade que os efeitos da indexação – ou da “indexflação”, como eu denomino a nossa atual inflação – vão sentir-se aos poucos, porque não há mais correções monetárias tão relevantes como as que havia outrora, tais como a dos salários e dos balanços das empresas.

A indexação, contudo, é um dos nossos principais problemas financeiros nos dias que correm, com a única vantagem de poder ser resolvido legalmente, consertando artifícios que foram sendo montados a partir de 1964, não desarticulados até hoje.


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