RETÓRICA E PROPAGANDA

Em reunião, ontem, com empresários, o ministro da Fazenda GUIDO MANTEGA afirmou que o pior da inflação já passou, pois teríamos chegado ao cume da montanha ( ou seja, à sua parte mais alta) , mas, agora, os preços começaram a cair, sendo preciso evitar uma dose excessiva de remédios ( a elevação dos juros, promovida pelo Banco Central ) para que o enfrentamento da doença não mate o paciente.

O ministro da Fazenda, como se vê, continua a achar que o seu papel é fazer propaganda e usa, para tanto, uma retórica organicista, muito divulgada, mas que não está a altura do cargo que ele ocupa, que exigiria do seu titular maior exatidão teórica.

Dizer que a inflação está caindo é mera propaganda e os fatos podem desmoralizar, daqui a pouco tempo, a fala do ministro. Se os índices de preços voltarem a subir, o que ele vai dizer, que foi o “feijãozinho” ?

Quanto à retórica da doença e do remédio, tratando a Economia como se fosse um organismo vivo, ela deve ser evitada. Na sua Teoria Geral do Estado KELSEN se refere às doutrinas que tratam organizações estatais como “ um corpo animado, ou como alma corpórea, à semelhança de outros organismos animados”. Trata-se, segundo ele, de uma hipostasia, convertida em mitologia, que não passa de uma metáfora mal entendida:

“A concepção de Estado” – diz ele – “ como organismo natural é utilizada em grande parte com a finalidade de conferir uma aparência de objetividade científica, de atribuir o caráter científico-natural ao que não passa de um raciocínio meramente subjetivo, matizado de coloração ético-política”.

Essa biologia social já suscitou a ridícula questão do sexo das instituições, segundo a qual o Estado, por exemplo, seria macho, e a Economia fêmea, de modo que a relação de ambos deveria ser a do marido e sua mulher, o que, evidentemente, não é o caso.

Creio que a contribuição política do ministro da Fazenda não deveria ser a de empregar “metáforas mal entendidas”, para finalidades apenas propagandísticas, mas a de promover a discussão pública dos grandes temas atuais da nossa Economia, criticando os juros altos e os taxas defasadas de câmbio, mas a partir de posições teóricas, e apontando caminhos e soluções, o que infelizmente não se tem visto nos discursos do titular da Pasta.


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