UNIDADES DE CONTA

Embora o uso da expressão “unidade de conta” seja condenado pelos especialistas vou empregá-la aqui para tentar demonstrar, com base em notícias econômicas do Estadão de hoje, como a utilização simultânea de várias delas está tornando cada vez mais difícil administrar, monetariamente, o Brasil pós Real.

A unidade de conta fundamental em qualquer Economia é a moeda nacional.

No Brasil, porém, cuja memória da indexação não se apagou ainda – e tem sempre alguém querendo reacendê-la – ainda temos várias unidades de conta, algumas delas indexadores, outras um misto de taxas de juros e de correção monetária, tais como SELIC, a TJLP, os vários índices que medem a inflação, como o IPCA, o IGP-M, etc, etc.

Ao lado de uma variedade de unidades de conta, mantemos, ainda, no Brasil, uma contabilidade que foi “inventada” na época de alta inflação, et pour cause deixou de ser nominal. A administração, conjunta, dessas diversas linguagens não pode deixar de provocar perplexidade.

A principal manchete de primeira página do Estadão de hoje, por exemplo, dá conta de que o governo gasta R$106 bi de juros, o que eleva o déficit nominal, mas não o superávit primário, que está subindo com a maior arrecadação de impostos. Ficamos sabendo, então, que, quando o peso dos juros é incluído nas contas deixamos de ostentar um superávit primário e passamos a mostrar um déficit nominal, o que é complicado entender.

Mais adiante, lemos que o Congresso vai votar um reajuste para os Ministros do STF, de R$ 24.500,00 para R$ 25.752,00. Esse fato, em si, não seria assustador, se não fossem as suas características tipicamente brasileiras: 1) trata-se de um “reajuste”; 2) ele é retroativo a janeiro de 2007; 3 ) tem efeito “cascata”. Ele, em resumo, não é um aumento: é uma indexação de subsídios, que vai repercutir em todo a Economia no ano que vem.

Por outro lado, está difícil saber se a inflação estancou ou não.

Segundo o ministro MANTEGA, ela está “sob controle”. Já o Diretor de Política Monetária do Banco Central, MÁRIO TORÓS, diz que o alívio é temporário. Alguns índices estão, efetivamente, baixando, mas outros, como o da construção civil, mantém-se aparentemente inabaláveis em seus níveis elevados, especialmente quando na área de mercado a que eles se referem vige ( como é o caso do setor imobiliários ) ainda, a correção monetária.

O Tesouro, por sua vez, quer reduzir a emissão de títulos da dívida pública pré-fixados, porque os pós fixados são mais fáceis de vender. Acontece que pós fixados são títulos que, além de juros, fixos e flutuantes, aumentam de cotação com a elevação da inflação sendo, portanto, inflacionários.

Enquanto isso, os devedores rurais conseguiram que o Senado lhes assegurasse a redução do indexador das dívidas, que deixará de ser a SELIC e passará a ser a TJLP.

Ao mesmo tempo, o salário mínimo, que é, à sua maneira, um indexador, será elevado em primeiro de fevereiro de 2009 para R$ 464,72.

No tocante à valorização do Real ela continua prejudicando as empresas exportadoras brasileiras, afetando, pelo menos, 4 setores: os têxteis, os calçados, o vestuário e os materiais hospitalares.

É verdade que os bons ventos continuam a soprar, mas a administração monetária não se pode fazer com base, apenas, com base em condições naturais favoráveis.

O governo, diante da alta da inflação, demonstrou que dispõe de vários instrumentos para reverter as expectativas, o que conseguiu, por enquanto.

Mas é preciso unificar as diversas unidades de conta, sintetizando-as numa única moeda nacional, para se impedir que chegue o momento em que os sinais se tornarão tão contraditórios, que será impossível entender o que estará ocorrendo.

O governo do presidente LULA ainda tem tempo, a meu ver, de promover uma mudança definitiva na nossa mentalidade monetária.

Se ele fizer isso, deixará, por certo, para o seu sucessor ( ou sucessora ) uma herança bendita !


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