AINDA A MOEDA ÚNICA REGIONAL

Na ocasião da assinatura do acordo que prevê o uso de Real e Peso, em vez do Dólar, no comércio entre o Brasil e a Argentina, o presidente LULA declarou que se tratava de mais um passo na direção da instituição da moeda única do MERCOSUL, proposição que o principal artigo de fundo do Estadão de hoje procura desqualificar, ao dizer:

“Ao contrário do proclamado pelo presidente LULA ( esse acordo não é ) o primeiro passo para a integração monetária regional. Para chegar à moeda única, Argentina e Brasil teriam de percorrer um longo e difícil caminho de convergência em suas políticas fiscais, cambiais e comerciais.”

Trata-se, como se vê, mais uma vez, do discurso negativista, contrário à idéia da moeda única, tal como me pareceu ser o artigo do Embaixador RUBENS BARBOSA ontem publicado no mesmo jornal, intitulado “ O Brasil não é instituição filantrópica”, onde ele, num tom extremamente pessimista, afirma, nessa mesma linha, que o MERCOSUL está “seriamente abalado e sem perspectiva”.

Não devemos ignorar que falta, efetivamente – e falta há muito tempo – ao MERCOSUL, definir uma “perspectiva”. Não se deve, contudo, alimentar a idéia de que essa perspectiva não possa ser definida.

A proposta de uma moeda única pode, a meu ver, preencher esse vazio, e demonstrar que os votos otimistas do presidente LULA estão numa direção mais certa do que os de RUBENS BARBOSA e do jornal O Estado de São Paulo.

A União Européia deu tão certo, como deu, porque os seus idealizadores, desde o início, tiveram, como perspectiva, a criação da moeda única regional.

O que são contra o “SUR” – como eu proponho venha a ser a denominação de nossa moeda única – não desejam, na verdade, a integração continental sul americana. Aqueles que a querem, contudo, não podem ficar esperando o tempo passar, porque a situação política sul americana ainda é instável, o que parece colocar os objetivos iniciais cada vez mais distantes e difíceis de alcançar.

Não é fácil, enfim, promover uma integração regional; mas não podemos desistir dela.

O MERCOSUL foi dotado, desde o começo, de uma estrutura jurídica deliberadamente fraca, o que fez com que ele corresse o risco de se tornar uma “retórica”, e não uma organização bem sucedida.O ingresso, no bloco, da Venezuela, por outro lado, ao invés de ser visto como uma conquista positiva, está sendo utilizado como um argumento contrário ao MERCOSUL, na medida em que o presidente HUGO CHÁVEZ é sistematicamente demonizado, como se ele devesse ser destronado de qualquer forma.

A circunstância de a Venezuela, e outros países, estarem experimentando uma nova forma de organização ( que, se não chega a ser socialista, é nacionalista, e contrária ao capitalismo globalizado, liderado pelos Estados Unidos ) não significa que a democracia sul americana esteja ameaçada, nem que o dinheiro não possa ser usado cada vez mais como fator de organização social, permitindo maior eficiência.

A união monetária que acabou de ser firmada entre o Brasil e a Argentina é, portanto, como disse o presidente LULA, um passo concreto, da direção certa, e o Real pode desempenhar um papel predominante na busca desse caminho.

Deve o governo criar, o mais rapidamente possível, um órgão específico – a exemplo do que fizeram os países europeus quando instituíram o Instituto Monetário Europeu – que se possa transformar, em breve, na semente do futuro Banco Central Regional.

A moeda única regional pode ser a perspectiva que falta ao MERCOSUL.


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