UMA NOTA OFICIAL IDEOLÓGICA

A Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, em nota oficial sobre as críticas da Organização das Nações Unidas às suas ações nas favelas, afirma que “ as opiniões do representante da ONU são subjetivas, desfocadas da realidade do Rio de Janeiro e carregadas com forte viés ideológico”

Em outras palavras o governo do Estado, em nota oficial, acusa o relator da Organização, PHILIP ALSTON, de mentir ( “estar desfocado da realidade” ) e de estar inspirado por alguma “ideologia”.

Quem já leu esse relatório da ONU sabe que, no caso, infelizmente, não é o relator quem está mentindo.

O significativo dessa nota, contudo, é a assunção, por parte do governo do Estado, de que a sua política de segurança, baseia-se numa ideologia.

O governo não diz qual é o “viés ideológico” do relator PHILIP ALSTON : mas deixa claramente subentendido qual é a ideologia dele, governo. E qual é essa ideologia, do governo do Estado do Rio de Janeiro ?

Vou dar uma pista.

Num livro muito conhecido, “Teologia Política”, o jurista CARL SCHMITT, ideólogo do nazismo, afirma, literalmente, que “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”.

Ora, se o governo local não atua, no caso da Segurança, dentro das normas do Estado de Direito, é porque prefere atuar na “exceção”, não apenas para agradar uma parcela da opinião pública favorável à matança, mas querendo agir “soberanamente”.

A nota da Secretaria de Segurança, ao insinuar que há “um viés ideológico” – supostamente de esquerda – no relatório do representante da ONU, deixa escapar, portanto, num ato falho, o reconhecimento de que o governo do Estado atual não é apenas de direita, mas de extrema direita.


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