CRISE DOS EUA: OS PRÓXIMOS PASSOS

O US Federal Reserve System ( Fed ) e o Tesouro são os dois personagens mais importantes no cenário da atual crise monetária norte americana mas os seus papéis são diversos, e suas atuações deverão ser, por isso, diferentes, no futuro.

O Tesouro americano é um órgão do Poder Executivo, que, por definição, é dependente do governo e de sua política: é o nosso Ministério da Fazenda que desempenha funções de administração financeira e tributária. O Secretário HENRY PAULSON, portanto, de certa forma, está, apenas, pedindo autorização ao Congresso para pagar o pato das ações desastrosas do Banco Central americano – o Fed – nos últimos anos, que permitiram que a crise financeira chegasse ao ponto a que chegou.

Criado em 1913 o Fed, diferentemente do Tesouro, é um órgão que precisa de independência e autonomia para funcionar, porque lhe cabe comandar a política monetária do Estado nacional, e disciplinar, através da moeda, mediante regras próprias ( numéricas e não ideológicas ), a conduta das pessoas na sociedade.

No caso concreto da atual crise bancária norte americana o Fed mostrou contudo que, desde, pelo menos, a gestão até há pouco endeusada de ALLAN GREENSPAN –chairman da instituição de 1987 a 2006 – o Banco Central americano deixou escapar de seu controle, grande parte do sistema monetário, por entender que a regulação iria matar a criatividade das pessoas que atuam no mercado monetário.

Ao permitir que grande parte do sistema ficasse inventando cada vez mais derivativos e saísse da sua esfera de influência, o Fed mostrou-se comprometido com uma modalidade de “americanismo republicano”, essa ideologia que está fazendo os EUA desabar a cada dia que passa.

A discussão sobre se o Banco Central deve regular mais, ou menos, o mercado financeiro repousa sobre um falso problema, pois a emissão da moeda nacional é, por definição, um monopólio do Estado. A idéia de uma moeda privatizada, que foi tão cara a HAYEK, é fruto de pura alucinação.

A crise monetária norte americana demonstrou que o seu Banco Central, por mais que jurasse ser autônomo e independente, estava sujeito, mais do ninguém, às influências ideológicas que o governo republicano impunha à sociedade.

Isso pode sugerir uma drástica mudança, que consistiria em tornar o Fed um banco central regional, e não mais nacional.

Foi o que aconteceu, em época recente, com a criação do Banco Central Europeu, que está resistindo, aliás, à crise mundial, com muito mais altivez do que ocorreria se os bancos centrais alemão, francês, italiano, espanhol – em suma, de cada um dos países europeus – ainda existissem.

As medidas para criarem-se sistemas internacionais de fiscalização das operações financeiras são a meu ver, inviáveis, sendo impossíveis de ocorrer no âmbito das atuais instituições políticas tradicionais, como a ONU. Mesmo as instituições bancárias internacionais, como o FMI e o Banco Mundial não têm capacidade, nem tradição, para fiscalizar o sistema monetário internacional de fato tal como ele hoje existe.

Querer, por outro lado, de um momento para o outro, criar um grande Banco Central internacional, que englobe países tão diferentes como a China e os EUA, por exemplo, é também impossível.

A solução poderá ser, portanto, ir criando bancos centrais regionais, tornando-os supra estatais, e com isso, efetivamente independentes das ideologias nacionais.


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