COZINHANDO OS SIRIS VIVOS

O professor ALFREDO LAMY FILHO referia-se, sarcasticamente, em suas aulas, às diversas formas pelas quais uma situação podia ser sentida por diferentes pessoas, dando como exemplo a prática culinária de cozinhar os siris ainda vivos, em grandes panelas.

Segundo ele, antes de a panela ferver completamente, três camadas de siris percebiam o que estava ocorrendo de modo distinto: os siris de cima sentiam um calorzinho, até agradável, com o qual não se preocupavam; os siris do meio já tinham a exata percepção da situação, e sabiam o que os esperava e os siris de baixo já estavam sendo cozidos.

Lembrei-me dessa metáfora há pouco ao assistir ao comentário de uma jornalista da rede CNN que dizia que os americanos, em geral, continuavam a fazer compras nos shopping centers e a jantar fora, como se nada estivesse acontecendo, e não deviam imaginar a gravidade e a extensão da crise.

Essas pessoas, a que a jornalista se referia em seu programa, são os siris de cima, da panela do professor LAMY: elas chegam, talvez, a sentir um calorzinho, mas não conseguem achá-lo sequer desagradável.

Os congressistas, porém, depois das exposições que feitas pelas autoridades monetárias – especialmente pelo Secretário do Tesouro e pelo Presidente do Fed – viram, com clareza, o que iria acontecer, se não autorizassem o Executivo a adquirir as dívidas podres dos bancos, pagando, por elas ( segundo se supõe ) 50% pelo menos da quantia pela qual elas estão lançadas nas demonstrações financeiras, e chegaram a um acordo, que vai ser votado, ao que parece, na segunda feira.

Enquanto isso os siris de baixo ( tais como os dirigentes dos bancos e das instituições financeiras, sem recursos para pagar as suas dívidas, e sem dinheiro para enfrentar corridas dos depositantes) já estavam começando a cozinhar.

Vamos ver se eles conseguem algum alívio por força das medidas aprovadas pelo Congresso.


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