RETROCESSO

O presidente CHÁVEZ, segundo reportagem de hoje do Estadão, assinada por RENATA MIRANDA, parece entusiasmado com o retorno, na Venezuela, a um certo sistema de trocas, que tornaria mais igualitárias as relações entre os agentes econômicos, sem “ a exploração do sistema capitalista”, explicando o processo por ele imaginado (que contaria com o emprego de peças monetárias regionais ) com o seguinte exemplo:

“ Se sou produtor de bananas me incorporo como produtor e consumidor, assim troco minhas bananas por 10 zambos ( moeda local ) e esses 10 zambos são equivalentes a alguns tomates e a um frango.”

Esse discurso me lembrou o do filósofo ARISTÓTELES, em seu livro Política, quando tentava explicar o surgimento da moeda a partir da troca, veiculando idéias que também MARX, mais tarde, assimilou.

Tanto ARISTÓTELES, como MARX, como CHÁVEZ estão, porém, a meu ver, equivocados, mesmo porque a moeda não é um produto do capitalismo, e sim uma forma de organização das sociedades, do que é prova, inclusive, o fato de que a CHINA, que é socialista ( e socialismo é um regime econômico contrário ao capitalismo ) empregar, cada vez mais, o dinheiro, nas relações juridico econômicas interpessoais internas em seu país.

A própria idéia de que a troca teria antecedido a moeda, que provem de ARISTÓTELES, tão disseminada entre nós, é, a meu ver, fruto de um equívoco, e confunde alhos com bugalhos.

Para que haja trocas é preciso que os produtos trocados sejam comparados, função que a unidade monetária desempenha de forma brilhante, melhor do que qualquer outra similar que se usa no mundo físico.

É verdade que há outras unidades de medida – como o quilograma, por exemplo – que possibilitam a comparação de mercadorias a serem permutadas, como as bananas e os tomates ( do exemplo do presidente CHÁVEZ ).

Quando se trate, porém, de comparar bens e serviços, não há quilograma, metro, ou outra medida física que nos ajude, sendo indispensável, portanto, a moeda que, portanto, logicamente, deve ter antecedido a troca, ou o intercâmbio.

A sugestão de CHÁVEZ consagra um retrocesso. A moeda, como a lei, é politicamente neutra, e tanto pode ser usada pelos capitalistas, como pelos socialistas.

Não vai ser acabando com a moeda que o socialismo do século XXI poderá triunfar.


2 comentárioss até agora

  1. Mahesh outubro 6, 2008 2:24 pm

    Olá Letácio!

    Boa tarde !

    Permita-me discordar, dizendo que o socialismo não é tão contrário assim ao capitalismo. O socialismo se baseia em uma teoria furada, enquanto que as teorias sobre o capitalismo se baseiam na prática. Então a teoria socialista faz uma projeção de futuro para a sociedade, que não vai acontecer, porque é impraticável. Os furos dessa teoria são vários, por mais que identifique certos traços socialmente inaceitáveis do capitalismo e apresente também algumas propostas corretas como solução. Também é interessante notar que os países ditos socialistas acabam adotando o capitalismo de estado, ou seja, a única diferença é que, em vez de a economia ser centralizada por indivíduos (como no capitalismo declarado), ela é centralizada pelo estado.

    Quanto à utilização de trocas na economia, lembro aqui das afirmações de um filósofo indiano chamado P. R. Sarkar, que talvez esteja inspirando até mesmo Hugo Chávez. Deixo aqui um texto (em inglês) desse ilustre filósofo social, em que ele fala da relação entre as trocas (“barter trade”) e a estabilidade econômica:

    ***

    Economic Depressions
    17 January 1988, Calcutta

    In the economic sphere, you must know that two factors are very important. The first is that money will have to be kept in circulation. It must be understood that the more the purchasing capacity of money is not utilized or money is kept stagnant, the more the economic stratum is damaged. The second is that money, and indirectly its interest, can bring about disparities in wealth if it loses its ability to be the unit of economic equilibrium and stability. If these two fundamental factors of economics are even partially forgotten, a worldwide economic depression will result.

    Even if countries or socio-economic regions which have been maintaining a stable economic standard engage in trade related to bullion with other countries, they will have to suffer such a depression partially if not totally. If countries which are prosperous in various spheres and economically unrelated to other countries undergoing a depression, invest their wealth in enterprises of a non-yielding nature such as excessive defence spending, superfluous construction of large buildings, luxury goods, etc. – investments which do not earn any income in return – these countries will also suffer from economic depression.

    However, if a country discontinues trade related to direct or indirect economic transactions and commences barter trade instead with other countries, it will not suffer much from such an economic depression. In this case only a very slight economic depression, which is hardly felt, takes place at the end of every financial year due to imbalances in economic transactions. This type of depression is felt slightly every three years, a bit more every thirty years, and still more every 350 years…

    When something, for some reason or other, descends from its universally accepted position, or its natural value is reduced or brought down, we call it “devaluation”. When the leaders of the state find it difficult to balance the value of the currency with bullion, sometimes they officially reduce the value of the currency. This is called “monetary devaluation”. But, an economic depression is felt throughout a country or the world due to some inherent defects in the existing economic systems.

    ***

  2. letacio outubro 6, 2008 2:52 pm

    Muito obrigado pelas suas observações acima. Não posso concordar com a sua tese de que o socialismo ” se baseia em uma teoria furada” e o capitalismo ” se baseia na prática “. Países que todos admiramos, como a Noruega por exemplo, são dirigidos por governos socialistas, e estão dando certo. No tocante à China, que é, sem dúvida alguma, um país comunista, está adotando, agora, o que ela denomina um “socialismo de mercado” que, embora sendo de mercado, não é um capitalismo, nem mesmo um “capitalismo de Estado”. De qualquer modo, creio que concordamos num ponto: querer voltar ao regime de trocas é um retrocesso. A moeda é uma das mais notáveis invenções da humanidade de todos os tempos, e tanto pode ser bem utilizada pelos capitalistas, como pelos socialistas. Assim como a Lei.

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