A FALÁCIA DO PODER AQUISITIVO

O maior responsável pela popularização da noção de poder aquisitivo foi ADAM SMITH que embutiu essa noção no seu conceito de valor de troca. Escreveu ele, a propósito, em três momentos, no seu livro famoso,” A Riqueza das Nações”:

“Apesar de ser vulgar exprimir-se o rendimento de uma pessoa pelo montante em dinheiro que anualmente lhe é pago, isso só acontece porque tal montante regula a extensão do poder de compra dessa pessoa, ou seja, o valor dos bens que anualmente lhe é possível adquirir para consumo…”

“Tais receitas não podem, por conseqüência, consistir nesse conjunto de moedas metálicas, cujo montante é tão inferior ao respectivo valor, mas no poder de compra por elas representado, ou seja, no conjunto de bens que elas permitem sucessivamente adquirir, à medida que circulam de mão em mão.”

“Seria ridículo tentar provar, seriamente, que a riqueza não consiste na peça monetária, no ouro ou na prata, mas no que o dinheiro compra, e é valioso por comprar.”

Que diria, hoje, ADAM SMITH, porém, diante dessa enorme crise financeira internacional ?

Lembra o jornalista WASHINGTON MORAES , no artigo hoje publicado no “Estadão”, com o título “A crise do dinheiro no mundo da mandioca”, que há no mercado de dinheiro em jogo uma quantia superior a US$ 500 trilhões, enquanto o valor do produto mundial é calculado em cerca, apenas, de U$ 60 trilhões por ano.

Ora, se a crise envolve uma cifra de 500 trilhões, e se as pessoas – mesmo se comprassem tudo -não poderiam comprar mais de 60 trilhões, é lícito supor que há 440 trilhões a mais do que o dinheiro e o crédito podem comprar.

Quer dizer, então, que a noção de poder aquisitivo é, hoje, para usar a linguagem forte de ADAM SMITH, ridícula.

Não devemos, contudo, desanimar, diante dessa constatação. A noção de poder aquisitivo tornou-se, atualmente, tão inadequada quanto a de valor intrínseco, que ADAM SMITH combatia na sua época, mas isso não quer dizer que a moeda tenha perdido a sua relevância. Assim como a moeda não acabou, quando o conceito de valor intrínseco se tornou superado, ela não vai acabar, de novo, agora, em que a noção de poder aquisitivo virou pó.

O dinheiro vai sobreviver a todas essas turbulências internacionais assim como a lei sempre sobreviveu a elas, como um fator de organização da conduta das pessoas nas sociedades. A função organizatória do dinheiro, porém, não poderá ser exercida com eficiência se o modelo de sociedade não mudar.

O globo terrestre não suporta, mais, tanto desperdício, assim como a nossa consciência não admite a manutenção da pobreza nos seus atuais níveis. Essa crise vai nos obrigar a todos, portanto – sejamos, ou não, socialistas, como JONH MC CAIN está dizendo, pejorativamente, que BARACK OBAMA é – a rever os nossos ideais.

A nova mentalidade que despontou na campanha presidencial americana terá, sem dúvida, muita contribuição positiva a dar nesse sentido, qualquer que seja o resultado do pleito de novembro.


1 comentário até agora

  1. flavio outubro 24, 2008 10:46 am

    Poder aquisitivo – concordo, conceito metafísico.
    PIB e riqueza acumulada – precisa tomar cuidado, PIB mundial é o valor produzido em um ano pelo mundo. A soma de todos os ativos é a riqueza acumulada ao longo de toda a história da sociedade humana expressa de uma forma numérica. Estes valores podem ser diferentes, são coisas distintas. Não tenho know-how econômico para verificar a relação, mas desconsideraria o artigo do jornalista pois este também parece não ter.

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