O PERIGO DAS METÁFORAS

A palavra metáfora provém do grego antigo “metaphorá, âs – mudança – que, por extensão retórica, passou a significar ‘transposição do sentido próprio ao figurado”, e é com essa conotação que o jornal O GLOBO, num de seus editoriais de hoje, sob o título “Risco pós-crise” usa, num mesmo período, os verbos “engessar” e “castrar”, ao escrever o seguinte:

“ Mas há risco, por causa do clamor por uma regulação, que se pretende salvadora, uma ilusória vacina contra falências, de se engessar a intermediação financeira em escala mundial, e castrar-se a criatividade do sistema.”

O perigo dessas metáforas é que elas são produzidas para impressionar o leitor mas não conseguem definir com exatidão o que o escritor está querendo dizer, que acaba confundindo-se com elas.

O sentido próprio dos verbos engessar e castrar todo mundo sabe: engessar é colocar gesso sobre, especialmente para imobilizar região fraturada; e castrar é sinônimo de capar, e consiste em privar(se), por corte ou outro processo, dos órgãos da reprodução.

O editorial do GLOBO utiliza essas duas expressões com a finalidade de se opor ao que praticamente todos os chefes políticos europeus, a começar pelo primeiro-ministro britânico GORDON BROWN, com o apoio de líderes de países emergentes, como o presidente LULA, estão pregando. Na verdade, o que o jornal deseja, é que tudo, assim que puder, volte a ser como dantes, ou, como conclui o seu editorial:

“… recolocar o sistema nos eixos para que volte a cumprir este mesmo papel ( produzir renda e gerar bem-estar )”

Parece claro que essa intenção do GLOBO, que expressa a opinião daqueles que estão sendo apontados, agora, como os responsáveis pela crise financeira internacional, não tem futuro.

Se as coisas voltarem ao que eram antes da crise, como quer o GLOBO, como vai explicar-se o gasto dos trilhões de dólares, libras e euros que os Tesouros e Bancos Centrais dos diversos países ricos estão desembolsando para tentar por o mercado em ordem ?

Imagina o GLOBO, ingenuamente, que esse dinheiro poderá ser devolvido, em breve, pelos intermediários financeiros aos seus respectivos Estados nacionais ? Quem vai gerá-lo ?

Esse dinheiro acabará sendo, isso sim – para usar, agora, também uma metáfora – esterilizado, porque foi o excesso dele, quando deixou de corresponder a qualquer poder aquisitivo efetivo, que deu origem a crise, de modo que se ele voltar a circular, em peças monetárias ou em créditos, a situação anterior recrudescerá, o que é inadmissível.

Portanto, é pura tolice e perda de tempo falar em não engessamento da intermediação financeira e em preservação da virilidade e potência sexual do antigo sistema, que ruiu completamente.

Vale a pena salientar que os europeus estão defendendo uma regulação do sistema financeiro semelhante à que eles sempre defenderam e deixaram, apenas, de adotar, confiantes, temporariamente, nas supostas vantagens de uma desregulamentação que os fundamentalistas de mercado, especialmente norte-americanos, impuseram ao resto do mundo, a partir do governo REAGAN.

Os europeus passaram, no século XX, por graves crises monetárias e sabem, perfeitamente, que a moeda é uma criação do Estado e que disciplinar o mercado financeiro, na medida em que ele ameaça essa criatura estatal, é mera conseqüência do fato de o dinheiro ser emitido , e não nascer nas árvores.

A idéia de “Denationalisation of Money” , divulgada pelo papa do neo liberalismo, F.A. HAYEK, no seu livro “Desestatização do Dinheiro” ( cuja tradução em português foi editada pelo Instituto Liberal, em 1986) não vingou.

É claro que vai haver uma regulação estatal forte em todas as partes do mundo não só na China (país a que alude o editorial ) – que, embora faça parte, atualmente, do mercado financeiro mundial, é um país socialista e autoritário – como na Europa liberal e, por via de conseqüência, nos Estados Unidos.

A alternativa à essa regulação será a volta da “ciranda financeira” que ganhou dimensões internacionais e e se mostrou capaz de destruir o próprio capitalismo.

Quanto aos supostos “benefícios desse período, visíveis em todo o mundo” ( inclusive, diz o jornal, no Brasil ) eles são elusivos, produto das mágicas financeiras que se destinavam a iludir empresários e governantes.

Se compararmos a atual crise financeira mundial com as turbulências que houve no Brasil, na década de 1980, lembrar-nos-emos de que o artifício da correção monetária também pareceu, no início, trazer benefícios, tanto que o ministro ROBERTO CAMPOS pretendeu exportar o seu “know how”, escrevendo o seguinte, com o seu habitual cinismo:

“ É possível que venhamos ainda a exportar know-how nessa matéria. Se não estamos em condições de exportar a virtude inatingível, já é algum conforto que tenhamos capacidade de exportar fórmulas para a neutralização do vício inevitável”,

A correção monetária foi derrotada no Brasil com o Plano Real de 1994.

Agora, nesse dramático mês de outubro de 2008, o mundo desenvolvido presenciou a débacle da porra-louquice dos sub prime e dos target forward, que não voltarão no futuro, por mais que o jornal O GLOBO pareça ter saudades deles.


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