DEFESA DO INDEFENSÁVEL

Em artigo hoje publicado no jornal O Estado de S. Paulo, sob o título “Contra a crise, licença para matar ?”, o economista DIONÍSIO DIAS CARNEIRO tenta defender os responsáveis pela crise financeira mundial.

Segundo ele, “ o que fez crescer o mundo foi o maior papel dos mercados”, e “os fantasmas dos anos 60 estão sendo invocados pelos que nada aprenderam nos últimos anos, e pregam o retorno às idéias que nem geraram riqueza, nem incorporaram as massas à prosperidade.”

Vislumbrando “sinais de progresso, mesmo em meio ao desabamento desastroso dos mercados financeiros”, o articulista conclui o seu texto dizendo que não há “falta de conhecimento” por parte das autoridades monetárias mas uma grande “confusão ideológica”, que pode ser ” usada pelos aproveitadores” para mal regular o mercado.

Lembrei-me, a propósito desse artigo, da seguinte frase muito arguta de LEANDRO KONDER, às p. 228 do seu livro mais recente:

“ A ideologia criticando a ideologia pode se tornar mais ideológica do que a ideologia criticada”.

A doutrina de inspiração neo liberal, que GEORGE SOROS denominou “Fundamentalismo de Mercado”, subtraiu do controle dos fortes Bancos Centrais nacionais, e das frágeis instituições monetárias internacionais, a ação desvairada de operadores financeiros, sob a falsa alegação de que o mercado seria auto regulável, e isso produziu efeitos de gravíssimas conseqüências.

É pura perda de tempo continuar a defender essa doutrina , já condenada pelos europeus e que será, muito em breve, descartada pelo novo governo americano, quando for criado o órgão de regulação de risco das instituições financeiras e promulgada a nova lei para restringir os incentivos pagos a altos executivos.

Os argumentos de DIONÍSIO DIAS CARNEIRO, como de outros economistas e analistas brasileiros que estão escrevendo textos nesse mesmo sentido, partem do equívoco de considerar que a moeda é propriedade privada, o que não passa de uma tolice.

MONTESQUIEU, nos primórdios do capitalismo, dedicou ao tema todo o capítulo XVI do Livro 18º do “Espírito das Leis”, começado a publicar em 1748, escrevendo:

“ Quando um povo não conhece o uso da moeda, encontramos, nele, somente injustiças decorrentes da violência; e os fracos, unindo-se, se defendem contra a violência. Em seu meio, quase só existem conluios políticos. Mas, entre um povo em que a moeda está estabelecida, estamos sujeitos às injustiças decorrentes da astúcia e essas injustiças podem ser exercidas de mil maneiras. Torna-se então necessária a existência de boas leis civis. Elas surgem com os novos meios e com as diversas maneiras de ser desonesto. Nos países em que a moeda não existe, o larápio só rouba coisas e as coisas nunca se assemelham. Nos países onde existe a moeda, o ladrão rouba os símbolos e os símbolos se assemelham. Nos primeiros países nada pode ser ocultado, pois o ladrão sempre carrega consigo as provas de seu crime; a mesma coisa não ocorre nos outros países.”

Nada há de ideológico, portanto, em preconizar-se uma disciplina legal dos mercados.

O dinheiro é uma criação do Estado que o emite, e é ele que fundamenta o crédito. A suposição de HAYEK – essa sim, ideológica – de que os dinheiro possa ser privatizado, que está por trás desse discurso em defesa dos membros do cassino em que se tornou o mercado internacional, não tem fundamento algum.

Os que estão procurando defender o indefensável vão ser obrigados, muito mais rapidamente do que pensam, a mudar o seu discurso.


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