O GUIZO DO GATO

O artigo de hoje de CELSO MING, no Estadão, sob o título “Cabresto neles”, põe o chamado dedo na ferida, evidenciando que a grande dificuldade de equacionar a crise financeira internacional é política, porque os EUA, mesmo com OBAMA, não vão querer deixar o dólar ser enquadrado, e o dólar solto é, hoje, o principal problema.

Depois de lembrar o que foi Bretton Woods, em 1944, e mostrar que a situação atual é muito diferente daquela, MING conclui que o principal obstáculo à uma disciplina mundial das finanças são os EUA que, “apesar de enfraquecidos, continuam sendo a potência hegemônica e não querem dividir o poder com a Europa e alguns emergentes”.

Em Bretton Woods, como acentua ele em seu artigo, “ a proposta de criação de uma moeda única ( o “bancor” ) e de uma União Internacional de Compensação, formulada pelo economista britânico JOHN MAYNARD KEYNES, foi derrubada pelos Estados Unidos, que impuseram o dólar como moeda global de reserva ( tendo prevalecido ) o plano do economista americano DEXTER WHITE, baseado no dólar conversível ao ouro ( durou até 1972 ) que criou dois organismos internacionais destinados a remediar e prevenir crises: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial”.

“O que vai ser testado agora” – prossegue CELSO MING – “ é se os Estados Unidos estão dispostos a admitir que seus bancos sejam submetidos a uma autoridade global, a ser partilhada com estrangeiros”, porque, segundo ele, “ a idéia é meter um cabresto no sistema financeiro global ( bancário e não bancário ) e o problema é saber quem vai fazer isso e quem vai cuidar das cocheiras”.

Trata-se, mutatis mutandi, da velha anedota dos ratos que descobriram a fórmula de se proteger do gato, colocando um guizo no pescoço dele, que avisaria de sua aproximação, não havendo rato algum, porém, capaz de se dispor a colocar o guizo no pescoço do felino em questão.

Parece impossível, na prática, retornarmos imediatamente à uma idéia semelhante à de KEYNES, de criar uma moeda única e um Banco Central Internacional com competência para emiti-la com exclusividade. É viável, porém, como já escrevi mais de uma vez neste Blog, criarem-se moedas únicas e bancos centrais regionais (na área anglófona, por exemplo; no MERCOSUL; em países asiáticos e assim sucessivamente ).

A solução desta crise pode acelerar, assim, a criação de uma nova ordem jurídica internacional, baseada na moeda e não mais no Direito Internacional tradicional, este que tem, atualmente, na ONU o seu órgão máximo.

A fraqueza da ONU, como os estudiosos ( dentre eles NORBERTO BOBBIO ) apontam, é que ela não detém o monopólio da sanção, que caracteriza, em última análise, os Estados nacionais.

Se é impossível criar, neste momento, de uma hora para outra, uma moeda que seja emitida por um Banco Central internacional, mais impossível ainda – se isso fosse possível – seria instituir uma força militar internacional, para exercer o monopólio internacional das sanções, sob a égide da ONU ou de um organismo similar.

A criação de forças militares regionais também não seria solução, porque elas acabariam querendo guerrear entre si.

Creio que estamos chegando ao momento – parece incrível, mas é provavelmente isso o que está acontecendo sob as nossas vistas, e muitos de nós não estamos vendo ainda – de substituir as sanções negativas, violentas, nas relações internacionais, que deságuam nas guerras, por uma modalidade de sanção positiva, não violenta, que tenha caráter monetário.

As sanções monetárias, positivas, descentralizadas, são uma solução final muito melhor do que as sanções internacionais tradicionais.

Se desta crise resultar a compreensão desse fato, a crise terá valido a pena .


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