O ENIGMA DA MOEDA

Numa entrevista ao jornalista FERNANDO DANTAS, ontem publicada no Estadão, o Prêmio Nobel de Economia MICHAEL SPENCE, que participou de um grupo de 20 economistas que elaboraram o conjunto das sugestões aos líderes do G-20 que foram, afinal, parcialmente acatadas na reunião do dia 15 deste mês, em resposta a uma pergunta do repórter sobre o seu ceticismo quanto à possibilidade de uma reforma a curto prazo da arquitetura financeira internacional, faz a seguinte ponderação:

“Pense bem: as mais sofisticadas instituições financeiras do mundo, repletas de algumas das pessoas mais inteligentes do mundo, conseguiram criar uma situação na qual havia tanto risco sistêmico que, quando a coisa estourou, cada uma daquelas instituições, praticamente sem exceção, estava danificada ao ponto de não poder atuar nem mesmo como intermediário no sistema de crédito e de pagamentos. Enquanto não sentarmos e pensarmos arduamente sobre isso, não podemos nem ao menos obter uma explicação coerente sobre o que aconteceu.”

Os economistas, acrescento eu, não conseguiram formular, até hoje, um conceito exato de moeda, que é definida segundo as suas funções, de meio de pagamento, de medida de valor e de reserva de valor.

A noção de valor, por outro lado – essencial para a compreensão do que é a moeda – tornou-se tão ampla, e revestiu-se de tantas características ideológicas, que tem impedido que os estudiosos disponham de um ponto de partida seguro e confiável para começar a entender de que se originou a atual crise financeira internacional.

As idéias que ainda sustentam a concepção de moeda são as que nos legou ADAM SMITH: o dinheiro teria um valor de troca que consistiria no seu poder aquisitivo.

Esses conceitos – de poder aquisitivo e de valor de troca – estão em crise.

Há tanto dinheiro e crédito em circulação no mundo hoje, consubstanciado no G-20, que a moeda não pode ser explicada, mais, com referência quer ao seu poder aquisitivo, quer ao seu valor de troca.

A pobreza e a riqueza podem ser entendidas em função desses conceitos: mas não a moeda que não deve ter uma relação de dependência com esses dois fenômenos sociais.

Digamos que existam riqueza e pobreza no mundo porque o dinheiro está mal distribuído entre as pessoas.

Se deixarmos de pensar na moeda como uma fonte de valor – e pensarmos na moeda como um fator de organização social – a riqueza e a pobreza , em decorrência da maior acumulação de dinheiro por algumas pessoas ou países, perderão sentido.

É preciso, portanto, como diz SPENCE, que nos sentemos e pensemos arduamente sobre isso, para começar a ter explicações coerentes sobre o que aconteceu até agora, e o que ainda nos espera no curso desse incoerente século XXI.


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