REFLEXÕES SOBRE A CRISE

Tem se afirmado que a atual crise global da economia seria explicada por operações desastrosas originadas em empresas financeiras ou imobiliárias americanas – subprime – que teriam desembocado numa falência generalizada da confiança, pressuposto essencial da existência do próprio mercado financeiro. Não há dúvida de que esses eventos seriam o gatilho imediato da crise, mas essa explicação é por demais simplista para ser aceita sem um distingo, ou o aprofundamento de algumas especulações sobre a sua causa primária.

Especulemos, pois.

Antes, um parêntese: devem ser lembradas as semelhanças entre o início formal da atual crise (suprime) e a crise do SFH – o Proer dos militares, entre os muitos cometidos no período, valendo referir o emblemático caso Coroa/Brastel – quando, então, os ativos, podres ou não, foram enfiados garganta abaixo do mercado financeiro, especialmente a CEF, que recebeu, essa ultima, como cala a boca, as contas do FGTS, já devidamente depauperadas e esquartejadas.

Talvez seja esta a explicação de porque os bancos brasileiros escaparam das operações subprime, de semelhante etiologia e natureza, pois já devidamente escaldados pela crise do SFH, cientes e conscientes da fragilidade desse mercado no Brasil e da fatal inadimplência que encerraria a equação. E Deus é brasileiro, pois quando os bancos estrangeiros e nacionais se dispunham a admitir essas operações no País, em face dos mirabolantes resultados aos quais os mercados não são insensíveis – às favas os escrúpulos, diria Passarinho, em outra oportunidade – os fatos (certamente por intervenção divina) se precipitaram, inclusive com a surpreendente (e oportuna, diante do efeito demonstrativo radical) quebra do banco Lehman, esta sim, de conseqüências previsíveis, porém não previstas…

Está a ressumbrar que a “crise” é a contrapartida da própria globalização, instituída como meio e modo dos países ditos “ricos” ingressarem nos mercados dos países ditos “pobres”, superando a hiper “proteção” de suas incipientes indústrias de produção de bens e serviços. Na verdade, essa abertura comercial não teria mão e contramão, como teorizado, posto que não há paridade verdadeira entre os países detentores de indústrias altamente sofisticadas e especializadas e os países produtores apenas de insumos primários e commodities, de pouco valor agregado. E mais, impondo a subsistência da política de proteção de suas atividades primárias – especialmente agrícolas – que eventualmente poderiam ser (ou se sentirem) ameaçadas pelos países ditos emergentes, que tenham desenvolvido alguma agricultura de relevância.

Essa abertura dos mercados protegidos das minipotências às “nações amigas” se deu via recursos e financiamentos internacionais condicionados á aceitação dessa política qualitativamente unilateral, via BID, FMI, Banco Mundial BIRD e União Européia, sujeitando as linhas de crédito existentes a essas limitações, criando o dilema para esses países: ou aceitar a nova regra do jogo, para prosseguir viabilizando minimamente o desenvolvimento de serviços públicos essenciais às populações do dito terceiro mundo – admitindo a dicotomia produtos com valor agregado X commodities, de valor então sub-apreciado; ou prosseguir protegendo as suas indústrias, contra todas as vicissitudes e sem os financiamentos que as viabilizariam, com a fragilização dos governos dos países emergentes, sujeitos a convulsões sociais, muitas vezes fomentadas pelos próprios agentes de poderes externos, com o auxílio da imprensa local, sempre deficitária e ideologicamente orientada.

Ocorre que essa política maquiavélica fugiu ao controle, pois foram subestimadas as conseqüências do ingresso de capitais na base da pirâmide social – quando os recursos são potencializados em espiral ascendente, verdadeira e virtuosa causação circular cumulativa. Esses parcos recursos (parcos para as nações desenvolvidas), todavia, representam significativos recursos para as nações em incipiente estágio de desenvolvimento e trazem ínsito o peso específico para desbloquear as atividades industriais e comerciais de pequeno porte (de pequeno porte para quem, cara pálida?), propiciando a intensificação das atividades econômicas e financeiras dessas populações, com a criação e o fortalecimento de seu mercado interno, contrariamente ao pretendido: afinal, os ingleses tinham razão, pois, para manter o status quo, necessário privar esses países de toda e qualquer tecnologia, até mesmo de louças e vasos sanitários, como ocorria no princípio do século passado… Esses resultados lembram a subestimação dos efeitos da leve e morna inflexão do Governo LULA no sentido dos mais carentes – sob um coro orquestrado de protestos – via bolsa família, crédito em consignação e um desconhecido e insuspeito juizado federal, que resultaram em imprevisto – e para alguns ainda inexplicável – fomento da economia nacional e de seu mercado interno, com o aumento do consumo das classes C e D, com distribuição de riqueza em níveis “antes jamais atingidos neste País”.

Dinamizando, pois, a economia como um todo, pela extrema capilarização de seus vasos comunicantes, para cima e para os lados, a partir da base social, contra todas as previsões, criando um mercado interno fortalecido, que atualmente é um dos baluartes contra a atual crise, preservando o Governo e ampliando o prestígio do Presidente – repita-se, contra todas as previsões, dentro ou fora do Governo.

Criou-se, pois, internacionalmente, peso específico para a virada – a transferência (reitere-se, mínima) de tecnologia e de capitais para países subdesenvolvidos, com mão de obra de baixo custo, inclusive para justificar a existência do pretendido comércio globalizado, que exige parcerias de alguma espécie, mesmo sem equivalência paritária, posto que a atividade comercial é multilateral, e sempre pressupõe contrapartidas, motivações e interesses, ainda que em graus qualitativos diversos. O que implicou em aumento do consumo interno dessas populações de baixa renda (baixa renda em confronto com a de quem, cara pálida?) e a dinamização de suas economias numa escala nunca antes ocorrida, surgindo os BRINCHs e os PIGs. Reitere-se, resultado direto do fortalecimento do consumo e do mercado interno desses países, em face da riqueza marginal criada por um inédito revigoramento da atividade industrial de países até então acomodados a seu destino. E como se não bastasse, criando poder de embate suficiente para os emergentes poderem deslocar e obter algum espaço de países até então hegemônicos, absolutamente dominantes até passado recente.

JOSÉ EDUARDO SANTOS NEVES


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