AINDA A CRISE FINANCEIRA

Com a redução das dimensões da atividade econômica e financeira dos EUA – essa a verdadeira e inevitável crise subjacente, a fluir da conjuntura – as operações subprime do mercado interno americano, repassadas e disseminadas entre bancos internacionais de grande porte (veja-se Lehmann Brothers e China) visaram, em ultima análise, preencher um vácuo surgido nessa economia, a partir da ampliação dos espaços pelos e para os emergentes.

Esse expediente, entretanto, teria falhado porque os níveis das operações compatíveis com esse propósito transcendem às bases operativas reais, tornando necessário contornar os limites convencionais das negociações clássicas de mercado e, com a condescendência das autoridades reguladoras, expandir os seus limites além da segurança razoável, com a criação de ativos virtuais, ou seja, tendo como lastro apenas a aceitação e a boa vontade dos mercados.

Pois bem, não deu certo, mas considere-se que, se desde logo fossem respeitadas as regras tradicionais e ortodoxas, as conseqüências não seriam muito diversas, vez que teria lugar não mais a ponta do iceberg do subprime, mas a verdadeira face da crise, que é a recessão paulatina da economia americana, em função da atividade substitutiva crescente dos emergentes.

De mais a mais, esses movimentos de placas tectônicas econômicas são cíclicos, inesperados e irreversíveis, concretizando-se em marcos históricos significativos, como o foram a I e a II Guerra Mundial, a queda do muro de Berlim, o desaparecimento da Cortina de Ferro a agora a queda dos muros de Wall Street. Caem os reis de copas e ascendem os dois de paus, embalados pelas virtudes e qualidades que anteriormente projetaram os paises hoje em declínio.,,

Em síntese: as inocentes operações subprime do mercado interno americano vieram a encobrir um gap surgido em sua economia, causado pela emersão dos emergentes: o que aliviou momentaneamente as pressões e adiou a crise subjacente, já prenunciada pela queda do muro de Berlim e pelo desaparecimento da Cortina de Ferro, ao que se seguiria, agora, a queda dos muros de Wall Street. Falharam essas operações porque os níveis necessários a cumprir esse propósito – substituir os espaços da economia subtraídos pelos emergentes – não são factíveis com procedimentos ortodoxos, o que levou os mercados, diante da oportunidade, a criarem novas formas e limites de negociações, extremando as suas fronteiras e abrindo mão de garantias convencionais.

Não deu certo. Mas, se fossem respeitadas as regras e realizadas as operações by the book, não haveria essa complementação da economia, e a crise seria a outra, a verdadeira e que permanece com a sua potencialidade em curso: o declínio da economia americana e a sua paulatina substituição pelos paises emergentes. Si non e vero

JOSÉ EDUARDO SANTOS NEVES


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