UM CÍRCULO VICIOSO

Na entrevista de hoje ao Caderno de Economia do jornal O Estado de S. Paulo, o ex-economista-chefe da FEBRABAN, ROBERTO TROSTER, ao mesmo tempo em que critica os bancos, e o Banco Central, por praticarem, e permitir, taxas de juros tão altas, elogia o nosso sistema financeiro, na medida em que não depende do “resto do mundo”.

Diz ele, a propósito:

“Não faz sentido emprestar com taxas tão altas, e por prazos tão curtos. ( Os bancos )estão visando ao lucro no curto prazo, em vez de lucros sustentáveis no médio e longo prazos”.

Pouco adiante, afirma:

“O sistema brasileiro é fechado. Temos um sistema de poupança importante. Boa parte do sistema financeiro da América Latina é dolarizado. A gente quase não tem isso. Portanto, não dependemos do resto do mundo.”

Partindo dessas premissas – de que o nosso sistema não é dolarizado, mas os juros são exageradamente altos – a conclusão lógica do leitor só pode ser a seguinte: os nossos banqueiros são muito gananciosos, visando “ao lucro no curto prazo”.

Certo ?

Não: errado !

A explicação dos nossos juros altos não pode ser subjetiva: não é, apenas, a ganância dos banqueiros que os leva a cobrar taxas de juros tão elevadas, é o próprio sistema atual, que deve ser quebrado.

Com efeito, boa parte do sistema financeiro da América Latina é “diretamente” dolarizada, o que não impede que o nosso seja “indiretamente” dolarizado, através da indexação.

A manutenção de vários mecanismos, que foram idealizados nos tempos de hiperinflação, preservaram o artificialismo do qual ainda não conseguimos nos libertar e é, objetivamente, o responsável pela situação financeira brasileira atual, no que tange aos juros altos e ao câmbio fora do controle.

Não adianta ficar esperando que os banqueiros deixem de ser gananciosos – e TROSTER, que foi conselheiro deles durante tantos anos, sabe disso melhor do que todos; é preciso identificar o círculo vicioso, no qual estamos envolvidos, e do qual devemos nos libertar.

As taxas de juros brasileiras são as mais altas do mundo, e o Real está sujeito a variações cambias tão repentinas, porque o nosso sistema financeiro, a despeito do Plano Real, ainda está indexado.

Desde a sua origem , como se sabe, a indexação tem sido uma a contrafação da dolarização: um artificialismo que dificulta enfrentar as conseqüências negativas dessa situação, que muitas vezes não são sequer identificadas, como parece ter ocorrido na entrevista do ex-economista-chefe da FEBRABAN.


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