O CANTO DO CISNE

O jornalista econômico CELSO MING, no texto de hoje da sua coluna, “Fome e Sede de Dólares”, manifesta perplexidade diante do fato de o dólar americano continuar forte, a despeito da crise que os EUA estão sofrendo.

Segundo ele “ em todas as crises dos últimos 50 anos os primeiros ativos a derreterem foram a moeda e os título de dívida desses países encrencados ( mas) nesta está acontecendo o contrário ( pois ) quanto mais aumenta o pânico global maior é a procura e a valorização desses ativos.”

Acredita MING que esta situação “ só pode ser explicada por fatores que ultrapassam os econômicos propriamente ditos ( e ) tem a ver com a capacidade dos Estados Unidos de exercerem o poder global e de assegurar o cumprimento dos compromissos amarrados à emissão de moeda e de títulos ( e ) tudo se passa como se o mundo não quisesse o ajuste estrutural da economia americana, e trabalhasse para que os Estados Unidos mantenham de pé a atual relação de interdependência, a mesma que garante o acesso a seu enorme mercado de consumo e a manutenção do valor das enormes reservas acumuladas pelos países emergentes – incluídos, aí, os U$ 207 bilhões do Brasil.”

A capacidade de os EUA exercerem o poder global – isto é, o seu poder militar – está, a meu ver, afetada hoje em dia, embora seja maior do que a de qualquer outra Nação. Quanto aos demais argumentos acima, expostos por CELSO MING, eles são “econômicos” .

Quais seriam, então, os fatores “ não propriamente econômicos “que explicariam a valorização do dólar ?

Creio que o dólar está ainda se valorizando pelas mesmas razões que o ouro permaneceu valendo durante tanto tempo: isto é, porque as pessoas continuam, tradicionalmente, a pensar que ele ”tem” valor, ou seja, “tem” poder aquisitivo e valor de troca.

As causas mais profundas da crise monetária atual são a transformação das moedas nacionais em instrumentos de organização das sociedades, e não mais de “reserva de valor”.

A globalização revelou o tamanho da pobreza mundial e o crescimento passou a ameaçar a sobrevivência da Humanidade, mostrando que é preciso haver limites ao que, até então, parecia uma atividade infinita: ganhar dinheiro.

Com efeito, quando as peças monetárias deixaram de ser de metal, e se tornaram de papel, pensou-se que tinham sido extintos os limites físicos à emissão, o que deu a impressão de que era possível deixar crescer indefinidamente o poder aquisitivo e o valor de troca. Em decorrência disso três gerações de milionários – os donos das empresas, primeiro, seus filhos e os CEOs e Executivos, atualmente – ganharam fábulas de dinheiro, em dividendos, honorários ou bônus.

Duas novas questões surgiram, porém: de um lado, o crescimento vertiginoso, começou a causar o aquecimento global e ameaçar a nossa sobrevivência como espécie; de outro lado, a manutenção da pobreza passou a constituir um problema, na medida em que deu lugar à prática, cada vez mais disseminada, do terrorismo, por aqueles que nada têm a perder.

O modo de preservar o dinheiro como fator de organização social – onde ele, na verdade, tem uma relevância indiscutível – é deixar de tratá-lo como “reserva de valor”, do que muita gente rica não vai gostar, do que se defendem comprando dólares.

O dólar, portanto, está se valorizando como ativo, embora devesse estar se derretendo – como ocorreu em crises anteriores – numa antecipação da “saudade” que se vai ter dele.

Quanto aos títulos do Tesouro americano, acredito que os países, aos poucos, vão trocar as suas reservas internacionais, por aplicações que passarão a fazer em seus respectivos Fundos Soberanos.

Estamos assistindo, pois,a um canto de cisne….


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