A ÁRVORE DA SERRA: UM PEQUENO POEMA CONTRA A INJUSTIÇA !

Entendi, hoje, porque me emociona tanto o soneto de AUGUSTO DOS ANJOS, “A Árvore da Serra”: por que ele contém  uma denúncia contra a intolerância de um pai  – tão diferente do meu, sempre tolerante comigo – que derrubou uma árvore a machadadas pura e simplesmente porque ela o incomodava.

Dizia ele:

“- As árvores, meu filho, não têm alma! / E esta árvore me serve de empecilho…/É preciso cortá-la, pois, meu filho,/ Para que eu tenha uma velhice calma !

O povo Ekoi, um grupo étnico que habita parte do sudeste da Nigéria, na fronteira com Camarões, acredita que pode se vingar de alguém, dirigindo uma oração a uma árvore, oferecendo-lhe um presente e dizendo o nome da vítima.  A árvore, imediatamente, apodera-se do filho daquela pessoa, encerrando-o no seu tronco. Essa conduta, ensina KELSEN – no seu livro “Sociedade e Natureza” – “é uma consequência direta da interpretação social da natureza”.

No seu estudo sistemático sobre a Justiça, procedeu Kelsen a uma profunda pesquisa sociológica, sobre a qual escreveu uma obra notável, “Society and Nature”, publicada nos Estados Unidos, em 1943, na qual defende a tese que, ao contrário do que passou a acontecer no pensamento científico moderno, quando a sociedade tornou-se interpretada como parte da natureza, a ideologia do homem primitivo interpretava a natureza como parte da sociedade.

O “animismo” seria uma forma de o homem primitivo pensar a natureza como pessoa. A árvore da serra, portanto, não teria apenas a alma do filho: ela incorporava o filho, que o pai iria  assassinar, por um capricho.

AUGUSTO DOS ANJOS, como se lê no seu soneto, acreditava que a árvore possuía, apenas, a alma do filho, tanto que “aos golpes do machado bronco,/ o moço triste se abraçou com o tronco/ e nunca mais se levantou da terra!”.

Do ponto de vista poético essa dualidade corpo e alma produz um efeito comovente.

De todo modo, é muito elucidativo saber que a rigorosa regra científica atual da causalidade pode ter sido antecedida pelo princípio social da retribuição, no qual se enraíza a noção atual de justiça.


1 comentário até agora

  1. Ana Elizabeth janeiro 4, 2023 12:15 pm

    Quem dera todos refletissem …
    Ouvi no Programa da Cidinha rádio tupi e pesquisei.

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