MATA-FRANGO

O mata-frango era um jogo fascinante de minha infância que consistia – à moda, certamente, do baseball – de dois times, um dos quais usava, como taco, um cabo de vassoura de um metro e meio, aproximadamente, e o outro lançava uma pelota, feita de pedaços também de cabo de vassoura, de cerca de 5 centímetros.

Cada equipe, de duas pessoas, munidas dos cabos de vassoura, tentava rebater a pelota lançada e, quando conseguia, fazia uma corrida de revezamento, entre as duas búricas,  largas e rasas, cavadas no chão, distantes entre si cerca de 10 metros, marcando pontos. Se a pelota caia na burica do campo adversário os cabos de vassoura trocavam de mãos e a partida prosseguia com a nova formação.

Lembro-me de que havia algumas penalidades – não me recordo exatamente quais – que eram cobradas como se fossem penalties, com direito a três lançamentos, a cerca de um metro da burica, que era então defendida com o taco pousado sobre ela.

Eu jogava mata-franco quando morava na rua Tabira nº 22, na Gávea, no Distrito Federal, na década de 1940. A rua Tabira – que era de terra e foi, mas tarde, calçada de paralelepípedos –  mudou de nome depois para rua Engenheiro Pena Chaves, e de número, para 78. Aquele trecho do bairro da Gávea passou a designar-se Jardim Botânico. Mais tarde, a numeração da minha casa foi alterada para 68, o Distrito Federal foi transferido para Brasília, e eu, assim,  passei a morar na rua Engenheiro Pena Chaves nº 68, na cidade do Rio, no Estado da Guanabara ( posteriormente, no Estado do Rio de Janeiro ) habitando, sempre, fisicamente, no mesmo lugar.

São duas as lembranças, portanto: uma, a do mata-frango, que acho que ninguém mais se lembra;  e a outra, bem brasileira, da mudança sem mudar, que nos remete, mesmo inconscientemente, ao livro O Leopardo, de Lampedusa, vertido para o cinema por Luchino Visconti, onde figura a máxima do jovem Tancredi, sobrinho de Dom Fabrício, de que “algo deve mudar para tudo continuar como está.”


1 comentário até agora

  1. Ricardo Granville fevereiro 26, 2024 11:43 am

    Incrível! Encontrei alguém com essa memória de um maravilhoso jogo juvenil! Joguei muito, adorava!

    Morava na Rua Maria Angélica e jogávamos numa pracinha (Pça Sagrada Família). Exatamente como você descreveu.

    Pra mim o jogo se baseia no cricket, e não no baseball. Deduzo que seja influência inglesa, e não americana.

    Lembro que uma das penalidades que davam direito ao “penalty” era quando o “frango” (a tal pelota de uns 5 cm) após a tacada caía no “meio”, uma zona intermediária entre duas linhas demarcadas entre as búlicas. Mas era obrigatório que o time adversário gritasse imediatamente “MEIO” para assegurar o direito ao “penalty”. Se demorasse a gritar o outro time continuava correndo e marcando os pontos em cada volta.

    Sensacional a sua lembrança! Será que se encontra mais material sobre o “mata-frango”?

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