A TEORIA DE ADAM SMITH SOBRE A TROCA COMO ORIGEM DA MOEDA

Adam Smith, no capítulo IV de seu livro Riqueza das Nações, intitulado “Da origem e utilidade da moeda”, desenvolve, amplamente,  a sua teoria sobre a troca como origem da moeda, que é até hoje encontradiça nos livros texto de Economia em que os alunos estudam a matéria nas Faculdades.

Valendo-me das epígrafes  que procuram sintetizar o conteúdo dos diversos parágrafos da obra do grande escocês, que revolucionou a história do pensamento humano, vou tentar fazer, a seguir,  um breve resumo dessa teoria:

“Tendo-se estabelecido a divisão do trabalho todos têm de trocar para viver. As dificuldades da troca direta levam a que se escolha uma mercadoria para ser utilizada como moeda, por exemplo, gado, sal, conchas, bacalhau, tabaco, açúcar, couros e pregos. Os metais acabaram por ser preferidos por serem duráveis e divisíveis. O ferro, o cobre, o ouro e a prata foram de início usados sob a forma de barras não cunhadas e, mais tarde, marcados de forma a indicar o respectivo peso e qualidade, tendo as marcas destinadas a certificar a qualidade sido introduzidas primeiro e, mais tarde, a cunhagem para indicar o peso. Inicialmente, os nomes das moedas exprimiam o seu peso.”

Em prol de sua teoria da origem da moeda na troca, cita Adam Smith diversos autores e livros, dentre os quais Harris, “Money and Coins”, Homero, “Ilíada”, Plínio, “História Natural”, Pufendorf, “De jure naturae et gentium”, Martin-Leake, “Historical Account of English Money”, Montesquieu, “Espírito das Leis”, W. Douglas, “A Summary Historical and Political of the First Planting, Progressive Improvements and Present State of the British Setlements in North America”, J.J. Lalor “ Cyclopedia of Political Science”, Payfair, “Riqueza das Nações”, Grotius, “De jure belli et pacis”, Locke, “ Some Considerations”, Hutcheson, “System of Moral Philosophy,” Cantillon, “Essai sur la Nature du Commerce em Genéral”, Aristóteles, “ Política”, John Smith, “Chronicum Rusticum-Commerce or Memoirs of Wool, a Bíblia ( Gênesis ), Lowndes, “Report containing an Essay for the Amendment of the Silver Coin”,Hume, “History of England” e Martin Folkes, “Table of English Silver Coins”, o que evidencia a sua enorme erudição.

O ativista norte- americano David Graeber, que é professor de antropologia, publicou, há cerca de 4 anos, o livro “Debt – the first 5.000 years” ( Brooklin, Melville House, 2011 ) em que contesta, de modo bem irreverente, essa doutrina de Adam Smith, e afirma que ela não passa de um mito. O livro, na verdade, de mais de 500 páginas, é uma tentativa de demonstrar, com base em estudos antropológicos, que foi o “debt” ( que, na língua inglesa, tem um significado bem mais amplo do que débito, em português, expressando a quantia em dinheiro das dívidas ativas e passivas ) que antecedeu o dinheiro. Segundo ele não há prova alguma de que tenha havido uma sociedade de trocas, em que o açougueiro, por exemplo, troca, com o padeiro, a carne que não precisa, e que tudo isso não passa de uma tremenda fantasia.

Vale a pena transcrever alguns trechos dessa obra de Graeber, em geral bem humorados, que confirmam, de resto, o que escrevi no livro “A moeda nacional Brasileira”, disponível gratuitamente na Internet, no site www.economiajuridica.com, especialmente no capítulo V “Considerações sobre a noção de valor de troca” a que remeto o leitor.

Como salientei acima, David Graber escreve que não há prova do que diz Adam Smith e que,   ao contrário, o que existem são provas de que tal não ocorreu. Ele entra em detalhes de estudos de antropólogos ( entre eles Lewis Henry Morgan ) evidenciando que os iroqueses americanos estocavam alimentos em silos e que o conselho das mulheres da tribo os distribuíam, não havendo a imaginária comunidade de trocas, que se idealiza até hoje. Várias pessoas procuraram o tal lugar na América do Norte, onde Smith disse que teria havido trocas, e não encontraram, tanto que Caroline Humphrey, de Cambridge, concluiu:

“ Nenhum exemplo de economia de troca, pura e simples, jamais foi descrito, o que nos leva a concluir que a emergência do dinheiro a partir da troca , segundo qualquer etnografia disponível, nunca aconteceu.”

Isso não quer dizer que a troca não exista ( ela é um contrato nominado, inscrito no Código Civil ) nem que não tenha existido. Quer dizer que o que Adam Smith imaginou, entre habitantes da mesma tribo, não ocorria. Normalmente, as trocas aconteciam entre estrangeiros, muitas vezes inimigos. Graeber descreve o caso dos Nambikara do Brasil. Estuda os episódios ligados à “dzamalg”, da Austrália ( do povo Gunwinggu ), citando o antropologista, Ronald Berndt. Refere-se aos rituais, que envolvem danças e jogos sexuais e conclui que essas situações deixam claro que

“o comércio através da troca sempre é entre estranhos que não irão encontrar-se outra vez, de forma que não haverá posteriores relações entre eles.”

Lembra, com ironia, as narrativas dos livros-texto de economia, em que se diz: “ Imagine uma sociedade sem dinheiro. Imagine uma sociedade de trocas.” Afirma que isso é pura fabulação. Mostra que para haver negócios é preciso, antes, “haver arranjos institucionais – a existência de advogados, de prisões, de polícia – para garantir que mesmo pessoas que não gostam uma da outra , que não têm interesse em prosseguir em suas relações, e estão querendo, apenas, meter a mão no que a outra possui, conseguem reprimir a tentação de recorrer ao expediente mais óbvio ( que seria roubar ).

Passa a criticar a noção, encontradiça nos livros textos de Economia, de “dupla coincidência de desejos”. ( o que faz com muito humor e propriedade ). Salienta que

“ há boas razões para acreditar que a troca não é um fenômeno particularmente  antigo e que apenas se tornou generalizada nos tempos modernos. Na maior parte dos casos ela ocorre entre pessoas que tem familiaridade com o dinheiro mas, por uma razão qualquer, não dispõe de grande quantidade dele. Sistemas mais sofisticados de troca ocorrem usualmente no colapso das economias nacionais: mais recentemente na Rússia, nos anos 90 na Argentina, por volta de 2002, quando rublos, no primeiro caso, e dólares, no segundo, efetivamente desapareceram. Ocasionalmente, segundo ele, pode-se encontrar algum tipo de meio circulante começando a surgir: por exemplo, em campos de concentração e em muitas prisões os presos são, frequentemente, surpreendidos usando cigarros como uma forma de dinheiro, muito para o deleite e encantamento de economistas profissionais. Mas, aqui também, estamos falando de pessoas que cresceram usando dinheiro e que agora tem que viver sem ele – exatamente na situação “imaginada” pelos livros-texto de economia em que essa história começou.”

A solução mais frequente é adotar alguma forma de sistema de crédito. Quando grande parte da Europa “voltou para a troca”, depois do colapso do Império Romano, e de novo depois do Império Carolíngeo ter igualmente desmoronado, parece que foi isto que efetivamente aconteceu. As pessoas continuaram a manter contabilidade em termos do velho sistema monetário imperial, mesmo que elas não continuassem a usar peças monetárias. De igual modo, os Punkthum (da fronteira do Paquistão com o Afeganistão ) que trocavam bicicletas por jumentos, preferiram trocas diretas entre iguais, por  considerarem isso mais humano.

Quanto aos exemplos de Adam Smith sobre peixes, pregos e tabaco sendo usados como dinheiro  Graeber lembra que, em anos posteriores ao aparecimento da Riqueza das Nações os acadêmicos conferiram muitos exemplos e descobriram que em todos os casos as pessoas tinham muita familiaridade com o uso do dinheiro como uma unidade de conta. No caso do bacalhau, supostamente usado como dinheiro em Terra Nova, tratou-se, na, na verdade, de uma ilusão, criada por um simples arranjo de crédito ( mesmo porque seria um absurdo pagar-se a compra de bacalhau com … bacalhau ).

Quanto mais leio sobre moeda mais me convenço de que se trata de um assunto sério demais para ser tratado só por economistas…


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