O GATO PRETO NO QUARTO ESCURO E O ILUMINISMO DE KANT

Dentre os queridos amigos da minha geração um dos maiores foi, sem dúvida, Leandro Konder, de quem fui colega de turma no colégio e na faculdade de Direito e, mais tarde, na Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro, onde ele era Assistente Jurídico e trabalhava no então Centro de Estudos, em que fui buscá-lo para integrar o então criado Conselho Editorial da Revista de Direito.

Na explicação preliminar do livro “Hegel, a razão quase enlouquecida”, cita Leandro a opinião de um de seus professores na Alemanha ( onde foi obrigado a exilar-se na época do golpe empresarial-militar de 1964 ) escrevendo:

“ Numa me esqueci de uma conversa na qual o professor Hariolf Oberer dizia que, na geografia da filosofia moderna, existiam ilhas de variados tamanhos, mas só existiam dois continentes: Kant e Hegel. A vida humana, segundo meu bem humorado interlocutor, seria curta demais para explorar adequadamente toda a riqueza de um desses dois continentes. E, como kantiano convicto, Oberer lamentava que eu – marxista – estivesse condenado a passar a minha existência trabalhando no continente hegeliano ( para ele, o “continente errado” ).

Quanto a mim, comecei a conhecer o pensamento de Kant através do teórico do direito Hans Kelsen ( que, aliás, dele discordava em   alguns pontos, inclusive na doutrina jurídica ). Dentre os pequenos textos de Kant que, inspirado por Kelsen, eu li, há, pelos menos, dois, que me encantam: “À paz perpétua” e “Resposta à pergunta: o que é o iluminismo ?”, de 1784, este último que começa assim:

“ O iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere audem ! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento ! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.!”

Quando vejo hoje, nas redes sociais, tanta gente compartilhando affiches – meros cartazes em que são divulgadas ideologias de extrema direita – lembro-me da máxima de Kant: “atreve-te a saber”, e não sejas massa de manobra. A vida é curta, como lembra o Leandro, reportando-se ao professor Oberer. Vale a pena, porém, esforçar-se para saber algo que esteja ao seu alcance compreender melhor.

Escolhi um caminho que, na época, me pareceu mais fácil de trilhar, porque a sua bibliografia essencial é, ainda hoje – descontados os exageros editoriais das épocas de crises inflacionárias – pequena ( o que, por sinal, escandalizou o meu amigo, quando lhe confessei, francamente, essas minhas razões, logo para ele,  que era um leitor voraz  ).

Konder, como marxista, não gostava do dinheiro, e vivia modestamente, com os vencimentos de servidor público e, mais tarde, da remuneração de professor e conferencista, e de uns poucos direitos autorais. De minha parte, embora tenha conhecido a relevância do Partido Comunista no movimento estudantil, do qual participei, mas talvez porque tivesse nascido numa família de classe média alta, nunca fui marxista, preferindo a lógica formal kelseniana, que mais tarde usei para tentar fazer uma crítica da doutrina brasileira da correção monetária.

Perguntarão vocês: e onde fica o gato preto no quarto escuro mencionado no título deste post?

Já me referi, muitas vezes, a um pensamento de François Rabelais, de que há muitos “especialistas” que mais parecem professores cegos, ensinando a uma turma de alunos cegos,  a tatear, num quarto escuro, à procura de um gato preto. Até hoje, sempre fiz essa citação de memória: agora, buscando na Internet, vi que essa frase estaria referida no livro “Vidas de Grandes Romancistas”, por Henry Thomas e Dana Lee Thomas, Editora Globo, RJ, 1954, p. 32 ( embora não tenha, ainda, conferido, dou, desde logo, essa dica ).

Nas discussões atuais há muito professores ( tipo Marco Antônio Villa ) e escritores ( tipo Guilherme Fiúza ) aos quais a mídia dá espaço, botando alunos para procurar esse gato, que, sendo inexistente, provoca intensa frustração, que logo se transforma em histeria e raiva, especialmente em muitos companheiros meus da classe média alta, o que é pena.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.