UMA FÁBULA DE ESOPO

A história “Hermes e o escultor” consta de uma primorosa antologia de fabulas de Esopo da editora 34, de São Paulo, selecionadas, traduzidas e apresentadas pelo professor da USP André Malta,  que a minha neta Maria Beatriz gosta de ouvir sua mãe contar antes de ela pegar no sono. O texto é bem pequeno e posso transcrever abaixo:

“ Hermes, desejando descobrir qual era seu valor junto aos seres humanos, assemelhou-se a um humano e foi à oficina do escultor. Ao ver a estátua de Zeus, quis saber: “Quanto?” Quando o outro disse “Um Dracma”, perguntou rindo: “E a de Hera, quanto?”  Quando o outro disse: “Mais cara”, vendo também a própria estátua supôs – porque era o deus mensageiro e do lucro – que os seres humanos o tivessem em alta conta. Por isso Hermes quis saber: “Quanto?” E o escultor disse: “Ora, se você comprar aquelas, vou lhe dar essa de brinde”.[MORAL DA FÁBULA]  A história se ajusta ao homem presunçoso, que não tem nenhum prestígio entre os outros.

Esopo nasceu em 620 a. C, cerca de 250 anos, portanto,  antes de Aristóteles, a quem devemos a proposição de que a troca antecedeu a moeda, máxima que até hoje figura nas histórias oficiais do dinheiro divulgadas pelos bancos centrais, inclusive pelo nosso. Suas fábulas são uma demonstração a mais de que Aristóteles divulgou uma suposição despida de fundamento histórico.

Com efeito, a moeda – na época a Dracma grega – está presente em todos os instantes da narrativa de Esopo ( não só na acima transcrita mas em inúmeras outras )  mas em nenhum momento com o sentido de troca.

No tocante à expressão “valor”, utilizada por André Malta em sua tradução, ela, no original, figura como timé ( quem sabe a língua pode constatar esse fato no original, pois a edição é bilíngue; para os que não leem  grego o próprio tradutor explica o motivo porque verteu  timé como valor, tendo em vista o significado ambíguo da palavra grega, que quer dizer, literalmente, “preço” ou “estima” ).

Nas várias ocasiões em que escrevi sobre o conceito de valor demonstrei que esse vocábulo só ingressou no vernáculo a partir da Revolução Comercial dos séculos XII e seguintes, provindo do latim tardio “valor, valoris”, uma substantivação do verbo valer ( ou valere ) que já havia no latim clássico. Ao empregar o termo português valor, para traduzir timé, o professor Malta foi induzido a erro ( anacronismo ) por Adam Smith, que acrescentou a palavra valor ( que já havia no século XVIII mas não na Antiguidade,  nem em latim nem grego ) à noção aristotélica de troca, como antecessora da moeda. São dois equívocos imensos, até por se tratar de dois pensadores notáveis, Aristóteles e Adam Smith. Nem a troca antecedeu a moeda, como as fábulas de Esopo que a minha neta Bia adora, ajudam a desmentir, nem Aristóteles usou a expressão valor de troca, porque o substantivo valor então não existia, só vindo à luz a partir do Século XII.

MORAL DA HISTÓRIA:  ( em respeito ao estilo de Esopo ): assim como na leitura dos romances policiais importa pesquisar a quem interessa o crime, nas histórias das ideias devemos perquirir a etimologia das palavras e a época em que elas surgiram na língua.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.