SIGA O CAMINHO DO DINHEIRO

A frase “Siga o dinheiro” (“Follow the money”) ficou conhecida durante a investigação feita pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein,  do jornal Washington Post, durante o caso Watergate, na primeira metade da década de 1970. A série dos dois jornalistas é considerada por muitos a melhor reportagem investigativa da história do jornalismo mundial, e levou à renúncia do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (cf. site Congressoemfoco da UOL ).

Mas, para sabermos o que é o dinheiro, sejamos humildes e sigamos o caminho da palavra.

Este seria, sem dúvida, o conselho dos autores do livro “Menu, Saveurs de France- a origem dos nomes dos famosos pratos franceses”, Davi Jonert e Dominique Boyer, para quem “a etimologia pode ser fonte de humildade”, com cuja leitura estou me deliciando.

Vamos por partes:  o que é etimologia, o que é dinheiro, o que é moeda, o que é crédito, o que é valor?

  1. a) “Etimologia” é o “estudo da origem e da evolução das palavras”.
  2. b) “Dinheiro”, provém do latim clássico “denarius”, que era uma antiga peça monetária romana que valia dez asses;
  3. c) “Moeda”, também vem do latim “moneta”, através da palavra “Moneta”, antigo templo de Juno onde se cunhavam peças monetárias e
  4. d) “Crédito”, vem, igualmente, do latim, “creditum”, e significa, essencialmente, confiança.

Tanto “Dinheiro”, como “Moeda”, quanto “Crédito” são mais fáceis entender do que valor, todos substantivos que havia no latim clássico, com um sentido unívoco. O difícil é definir o substantivo “valor”, porque ele não existia no latim clássico, e só foi inserido na linguagem na Idade Média, por meio da palavra “valore”, do latim vulgar, e é plurívoco.

Ora, o latim, para os juristas – por causa da relevância, para nós, do Direito Romano – é parecido com “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, para os economistas, onde eles, respectivamente,  vão buscar as explicações para quase tudo o que afirmam.

Como o Direito Romano clássico não conhecia o conceito de valor o grande romanista alemão Savigny foi procurá-lo no baú dos economistas, isto é, na Riqueza das Nações de Adam Smith, onde aprendeu errado pois, sem faltar com o respeito devido a Adam Smith, ele cometeu um anacronismo quando acrescentou às noções aristotélicas de troca e de uso o substantivo valor, como se ele já estivesse definido na época do filósofo grego, o que não é verdade.

Karl Marx, por sua vez, incidiu no mesmo equívoco, porque leu não só Adam Smith como, provavelmente, a Política de Aristóteles em tradução de 1837 do filólogo alemão Immanuel Bekker que, também provavelmente, fora influenciado pela Riqueza das Nações de Adam Smith, cuja 1ª edição é de 1776.

Em suma, Adam Smith atribuiu, no Século XVIII, à noção de valor um sentido que ela ainda não tinha na Grécia antiga ( em que a palavra “timè” que dela se aproxima, significava “honra”, “estima” e “preço”, tal como hoje “valor” ).

Se a gente não sabe o que é valor não adianta muito saber o que é dinheiro, moeda e crédito, inclusive porque podemos nos tornar presas fáceis de espertalhões recentes como aqueles que inventaram, sob o pseudônimo de Sathoshi Nakamoto, uma criptomoeda ( whatever that means ) denominada Bitcoin, que teria valor ( e, como não tem,  ainda vai levar muita gente à bancarrota).

De qualquer forma, resta uma dúvida quanto ao futuro.

O que vai fazer o próximo governo brasileiro com o nosso dinheiro, com tão pouco valor atualmente? Será que vai “confiscar” a Poupança, como o fez Collor? Ou Collor nada confiscou, tendo tentado, apenas, uma Reforma Monetária radical que não deu certo?

Embora, no Brasil, a gente tenha medo até do passado, como dizia o ex-Ministro Malan, é mais garantido falar do que passou do que virá pela frente. O que será? E, se for, quando será?


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