QUEM É O DONO DO DINHEIRO?

Hoje de manhã, ao ler o instigante artigo no Globo, de Miriam Leitão, “A realidade fiscal bate à porta”, deparei-me com o seguinte trecho que me deixou intrigado:

“ O dinheiro é grande, mas insuficiente para manter a máquina e todas as obrigações. As regras são rígidas. Do total de R$ 1 trilhão 480 bilhões de despesas primárias, excetuando-se os custos dos juros, 93% são de gastos que não se pode reduzir, porque são obrigatórios.”

O texto da jornalista faz sentido; mas fiquei preocupado com a frase “excetuando-se os custos dos juros”.

Pensei comigo: a gente deve tirar os juros porque ele se referem ao dinheiro que é propriedade dos investidores os quais não têm nada a ver com as nossas dificuldades fiscais, nem com os problemas sociais e éticos de qualquer país do mundo ( mesmo porque se ficarem chateados não investem)? . Será que é isso o que pressupõe a autora do artigo? E se for, isso estará moralmente certo?

Lembrei-me, então, de reler o livro de Felix Martin, “Dinheiro, uma biografia não autorizada”, onde me parecia haver  algo a esse respeito e eis que encontrei a seguinte máxima, no capítulo 9, “O dinheiro através do espelho”, que figura, na p. 179 da edição brasileira:

“É aí, na ascendência do conceito de Locke sobre o dinheiro, que dever ser encontrada a origem a curiosa incapacidade do pensamento econômico ortodoxo para abordar as raízes sociais e políticas da instabilidade da sociedade monetária.”

Fica tudo explicado: fiel ao pensamento econômico ortodoxo a jornalista, excluiu, na sua frase, o custo dos juros.

Por último, já que estou falando desse Autor, gostaria de lembrar que Felix Martin combate, em seu livro, a economia ortodoxa, com extensos argumentos, um dos quais me permito transcrever:

“Foi só depois que, com a ajuda de Locke, o dinheiro passou para o outro lado do espelho que os dilemas éticos tradicionais a respeito da sociedade monetária desapareceram como num passe de mágica. O maior desses dilemas era a questão de até que ponto o dinheiro deve ser realmente o mecanismo coordenador da vida social. Essa questão se tornou obsoleta com a nova visão do dinheiro como uma coisa – um inofensivo fato da natureza. Enquanto nova disciplina, a economia afirmava, com ousadia, que questões de justiça moral e política antes consideradas vitais podiam ser reduzidas à aplicação mecânica de verdades científicas objetivas. A conivência dessa nova visão de mundo com o desastre ético não passou despercebida a todos os observadores contemporâneos.

Neste trecho final, ele se refere a um  antigo reitor do Baillot College de Oxford, Benjamin Jowett que escreveu :

“Eu passei a sentir certo horror de economistas políticos desde que ouvi um deles dizer que a fome de 1848 na Irlanda não mataria mais de 1 milhão de pessoas, e isso seria insuficiente para fazer o bem”.

Será que no fundo os ortodoxos operadores da Economia são, mesmo, todos eles, uns sadoeconomistas?


2 comentárioss até agora

  1. José Neves setembro 5, 2019 3:44 pm

    Quem sabe a admirada cronista de economia estivesse se referindo aos juros não obrigatórios, pagos aos bancos em função de recursos não utilizados, esquipática política do Bacen que causa desembolso – segundo consta – três vezes maior do que o suposto déficit da previdência social?
    Mas isto seria incomum sincericídio, revelando, afinal, quem são os verdadeiros rentistas…

  2. Mateus junho 14, 2021 11:34 pm

    Escreveu nao leu o pau comeu …………

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