HANS KELSEN: UM LIBERAL DE ESQUERDA

Tive alguma dificuldade em enquadrar, ideologicamente, o professor austríaco Hans Kelsen, o maior jurista do Século XX, que sempre evitou assumir, publicamente, sua posição política por entender que tal assunção viesse afetar a sua independência no trato da ciência do direito. Quis me parecer, no início, que Kelsen seria um socialdemocrata, admitindo, bem mais tarde, que ele era um liberal e agora, com a ajuda de José Guilherme Merquior, conseguindo identifica-lo como um liberal de esquerda.

Escreve José Guilherme Merquior, a esse propósito, em seu “O liberalismo antigo e moderno”, Capítulo V, no tópico “De Kelsen a Keynes: liberalismo de esquerda no entreguerras”, p. 2206:

“Assim Kelsen – o liberal de esquerda dos turbulentos anos de Weimar – acrescentou um argumento epistemológico à sua esclarecida defesa jurídica do Estado democrático”.

Vários autores, recentemente, têm chamado a atenção para a necessidade de voltarmos a ler Merquior, nestes “turbulentos anos” pelos quais os brasileiros estamos passando. De fato, com a sua ampla visão cultural, José Guilherme – que conheci pessoalmente, quando ele ainda era muito jovem, 6 anos mais novo do que eu – nos diz, organizadamente, o que estamos pensando.

Vivi o tempo em que uma grande parte da esquerda brasileira implicava com ele, colocando-o num  canto direito, que ele claramente transcendia. Esse não era o caso de Leandro Konder, seu amigo, com quem sempre dialogava. Mas de muitos esquerdistas então importantes. O resultado foi que nos esquecemos de José Guilherme Merquior, durante duas décadas, com inegável prejuízo para o nosso amadurecimento político.

Ainda bem que esse grande pensador brasileiro, um dos nossos maiores e mais esclarecidos, está voltando para perto de nós, socialistas, liberais ou conservadores, que precisamos voltar a lê-lo, tanto quanto nos unirmos para enfrentar esse obscurantismo atual, que nos ameaça com um fim catastrófico se não for barrado a tempo.


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