O CARRO VOADOR – por Ana Miranda

Acho que, penalizada com minhas idas e vindas pela estrada por uns duzentos quilômetros até chegar em casa, muitas vezes dirigindo sozinha, algumas à noite ou de madrugada, parando no posto de gasolina para tomar um café misturado com coca-cola, que afasta o sono, a minha amiga Bete me mandou a foto de um carro voador. Coisa mais fascinante!

Já estão fabricando na China, ela disse. Fizeram um teste em Dubai, ele voou por noventa segundos. Foi o bastante para me transportar ao mundo dos sonhos. Imaginei meu carro voador decolando de Fortaleza e aterrissando em Icapuí uns vinte minutos depois. Silencioso, rápido, pequeno, viria sobrevoando as praias como uma daquelas aves brancas que sabem mergulhar, as gaivotas – ah, Gaivota era o nome de nosso barco, onde morei nos anos 1970. Aqui na ladeira, bastava descer as rodas e entrar na garagem debaixo do cajueiro. Aves, barcos, nuvens, cajueiros, acordei para olhar a foto do carro voador chinês. Mais que um pássaro, parece um besouro; porém suas portas se abrem como o esqueleto das asas, ou como braços de deuses dançarinos hindus.

Desde criança tenho o sonho recorrente de que estou voando, e são momentos deliciosos, libertadores. Mas sempre tive medo de voar em avião, não acredito jamais que aquela gigantesca lata rígida aparafusada vai levantar voo e cruzar oceanos, fazer a volta ao mundo. Porém, sei que eu não teria medo de um carro voador, talvez porque fosse eu mesma pilotando, como nos sonhos. Ouvi dizer que a Embraer está desenvolvendo um carro voador brasileiro e, antes que algum chinês o faça, vamos ter cerca de trezentos carros voadores no Rio, em poucos anos. Por enquanto, eu ficaria feliz com apenas um carro terrestre que fosse elétrico.

Estamos precisando trocar nosso carro velho e beberrão (mas que eu amo). O carro elétrico ainda é caro demais. O Theo vivia dizendo: quando o Lula fosse eleito, o elétrico teria vez no Brasil, sob um governo de olho no meio ambiente; porque ele não emite gases de efeito estufa, depois de saído da fábrica. É silencioso, eficiente do ponto de vista energético; e li em algum lugar que, se um carro a combustão precisa de umas mil peças para ser fabricado, o carro elétrico necessita de apenas duzentas peças, algo assim. E ele já era fabricado no começo dos anos 1900.

Tem seus defeitos, claro. Mas é um passo à frente no controle do desastre climático que a humanidade está preparando para si mesma. Coisa moderna. Na Holanda, ao menos em Amsterdã, no nosso bairro, Jordaan, em cada quarteirão há um poste com mangueiras para carros elétricos se abastecerem durante a noite em que passam estacionados. A gasolina é tóxica. Agora é tempo das energias limpas. Não faz mais sentido, por exemplo, invadir as terras indígenas dos Waimiri Atroari, que já sofreram tantos massacres, para construir o Linhão de Tucuruí que vai levar energia da hidrelétrica até o norte da Amazônia. Seria o caso de instalar, em Roraima, usinas de energia solar. Há pequenas cidades isoladas, no mundo, em que cada casa tem seus painéis solares. Ah, os carros voadores precisam nascer solares!

Ana Miranda – transcrito do jornal O Povo de  26 de novembro de 2022


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