CENTENÁRIO DO PROCURADOR DO ESTADO OTTO LARA RESENDE

Os procuradores do primeiro concurso do então Estado da Guanabara, organizado em 1962 pelo Procurador Gustavo Philadelpho Azevedo, fomos muito bem recebidos pelos colegas da antiga Prefeitura do Distrito Federal, dentre os quais havia intelectuais famosos, como Otto Lara Resende.

Dizia o seu amigo, Nelson Rodrigues – na verdade, um Amigo da Onça – que “a grande obra do Otto é a conversa; deviam por um taquígrafo atrás dele e vender suas anotações em uma `loja de frases`”.

Como ele lançava aos ventos as suas frases não sei dizer ao certo se, as de que me lembro, eu ouvi pessoalmente na Cantina do Luiz, que ficava no 8º andar do antigo prédio da PGE na Erasmo Braga 118 – onde nos reuníamos diariamente para o cafezinho da tarde – ou se me foram contadas por amigos, especialmente pelos queridos Hélio Saboya e Pedro Paulo Cristófaro.

Uma historieta, que ficou célebre na Procuradoria, continha uma gozação ao nosso saudoso Diogo, que foi Procurador Geral da Guanabara.  Ao ler a minuta de um parecer do Otto algum colega alertou que a peça não obedecia à forma exigida por uma Resolução do Diogo, ao que o Otto retrucou: “eu não li, ainda, toda a Divina Comédia como é que teria tempo de ler a Resolução do Diogo”.

As nossas vidas se encontraram algumas vezes, fora da Procuradoria. O Otto nasceu em 1922 e eu em 1935. Somos, portanto, de duas gerações muito próximas. Morávamos ambos no Jardim Botânico, ele numa casa no loteamento Carioca e eu numa transversal da rua Lopes Quintas. Segundo o Hélio – lembro-me bem – o Otto dizia que os alicerces da casa dele tinham sido notas promissórias.

Entre 1962 e 1963 o Otto foi diretor do Banco Mineiro da Produção, do qual eu era então advogado. Ele ficou um ano, apenas, no cargo. O Hélio me relatou um comentário do Otto de que não tinha perfil para ser diretor de banco, tanto que se estivesse andando na rua do Ouvidor e alguém gritasse “pega ladrão” ele logo pensaria que o estavam perseguindo.

O Otto era um escritor compulsivo. Numa entrevista publicada no livro “O elo partido e outras histórias”, da editora Áttica, diz ele:

Nasci atacado de grafomania, ou seja, desde cedo quis escrever e escrevi. Como todo mundo, escrevi poesia. Fabriquei sonetos duríssimos, a martelo. Eu era menino de colégio e procurava imitar os sonetistas que lia. Vi logo que não era poeta. Quanto à prosa, comecei também cedo. Tive um diário. Escrevi contos ainda no colégio e os reuni num suposto livro que nunca foi publicado. Coisa imatura. Aos 17 anos, a caminho da universidade, comecei a escrever assinado na imprensa. Estava mordido pela serpente literária.”,

Pesquisei  no setor de documentação do Centro de Estudos Jurídicos da PGE do Rio de Janeiro  os trabalhos do Otto no exercício de suas funções e o resultado foi excelente: ofícios e pareceres que surpreendem não só pela qualidade do estilo como pela desenvoltura com a qual ele transitava pela legislação federal e estadual aplicável. Textos bem fundamentados, sobre matéria edilícia, que contam histórias da cidade do Rio de Janeiro.


1 comentário até agora

  1. letacio dezembro 9, 2022 5:24 pm

    Os pareceres e ofícios do Otto podem ser lidos no endereço eletrônico https://drive.google.com/drive/folders/1RU9uuSYZ2MfUnxJ4A4TZBeuR6f-vmahQ?usp=sharing, o link do drive vinculado ao e-mail da PGE no YouTube.

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