NOTÍCIAS DO CARIBE – por Ana Miranda

Todos os dias, antes de anoitecer, uma revoada de pássaros vem para o jardim do hotel e pousa nos galhos, em uma inquietação formidável. As aves são verdes, com penas vermelhas sob as asas. Talvez venham conversar, comer frutas, marcar território ou se aquecer. Por que todos os dias à mesma hora, nas mesmas árvores do mesmo jardim? Vi casais a se acarinhar, um par se acasalando, uma briga. De repente todas levantam voo, coalham o crepúsculo num balé em simetria e desaparecem.

A moça que arruma nosso quarto disse que são cotorras, um tipo de papagaio de la hispaniola. Para isso as viagens são boas: assistir a simpósios de passarinhos, pisar as ruas, sentir cheiros, ventos, olhar as luzes do lugar, ouvir os sons, ver os ademanes dos nativos, uma negritude bela… Estou em Santo Domingo e, embora a República Dominicana seja uma ilha, não tenho a sensação de isolamento. Sinto-me em casa, hablando um espanhol arrastado, ouvindo músicas que lembram a cubana, vendo nativos na praça cheia de pombos (jamais gostei tanto de pombos), a tocar e dançar à sombra de uma árvore, tirando daí a alegria para viver. Os nativos aqui têm altivez e uma dignidade que se mistura com indignação. Adoram maracujá e banana.

Aos poucos vou conhecendo o lugar, não apenas sua história contada em museus, escrita nas caravelas, no vestido de uma dama colonial, nas pedras corroídas pelos séculos, nos canhões apontados para o rio, em uma carruagem; mas, aprendendo que banana é plátano, que fazem uma deliciosa cerveja com gosto de champanhe, que pedras preciosas azuis endêmicas vendidas por todo lado são chamadas de larimar, e que o âmbar pode conter fósseis de lagartos, formigas, folhas ou libélulas com milhões de anos. Pensei em uma metáfora: misteriosa como uma flor no âmbar. É o único lugar no mundo onde se encontra o âmbar azul. Quando chegou a La Hispaniola, Colombo trocou com o príncipe seu par de sapatos por um colar de âmbar.

A mineração aqui é forte; o homem-escultura na rua pintado de prata é vestido de el minero, com capacete, picareta e botas. Também forte o comércio de açúcar, cacau e tabaco, nascido das lágrimas. A escravidão foi cruel como a brasileira e houve justas insurreições, quando escravizados incendiavam canaviais e iam se esconder nas montanhas. O país sofre os mesmos problemas que afetam sociedades humanas atuais: pobreza, drogas, violência, racismo, maus-tratos a mulheres, corrupção e tantos outros. Mas a Isla é uma joia da natureza. Esta semana vamos nos mudar para um hotel na praia, afinal vou sentir as águas azuis-turquesas que brilham como diamantes. E é um dos melhores lugares do mundo para se observar pássaros.

Também é muito bom, aqui, observar de longe o Brasil. A coisa mais bonita que aconteceu foi o amor nacional que surgiu pelo Richarlison, por seu coração bondoso, sua solidariedade para com pessoas que sofrem, que sonham, por sua voz a pedir justiça social. Ele é o bom Brasil que se levanta. Um jovem apelidado de Pombo, a ave que depois do dilúvio levou a Noé um ramo de oliveira no bico para mostrar que havia novamente terra.

ANA MIRANDA, extraído do site do jornal O Povo de 3 de dezembro de 2022


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