NATAL SEM OURO – por Ana Miranda

Soube dia destes que uma boa mulher juntou todas as suas joias de ouro e as mandou para os Yanomami. Achei o gesto uma beleza, de intensa consciência sobre o rastro de dores e sofrimentos que o ouro carrega. Pensei em fazer o mesmo, para as festas do Natal, como um gesto de afeto por indígenas e amor pela terra, pelas águas, florestas. Pela paz, pelo desprendimento. Como um presente para mim mesma, porque me sentiria uma pessoa melhor. Mas, na verdade quase não tenho joias de ouro, a não ser uma correntinha da infância, um velho brinco sem par, um anel sem pedra, esquecidos no fundo de uma gaveta.

Fiquei imaginando o que os Yanomami pensaram, o que sentiram ao receber aqueles colares, brincos, anéis, talvez um relógio, e o que terão feito. Decerto não passaram a se adornar com as peças. Quem sabe as tenham enterrado, num ritual sob a Lua, ou jogado na madre de um rio, devolvendo o ouro ao seu berço natural.

A maioria dos indígenas não minera, eles respeitam o ouro deixando-o nas profundezas, disse-me um dia a minha irmã musicista indígena. O ouro guardado no interior da terra, ou debaixo da água dos rios, foi ali escondido pela natureza e deve continuar assim, secreto, por suas propriedades de não alimento, seu dom de trazer males. No lugar de origem, o ouro é inofensivo. Ele segura as águas e dá à terra uma juventude eterna. Os garimpeiros não apenas o extraem, mas o queimam e o expõem ao sol em latas de metal, o que mata o minério e tira dele uma fumaça pestilenta que se espalha em todas as direções, dizem indígenas. Seres vivos perdem a fertilidade e florestas se tornam inabitáveis.

O ouro possui uma força específica, um poder que vem de seu resplendor e suas sombras, ele é repleto de visagens das vidas que se foram, assim como penumbras de seres invisíveis que o protegem; é um ser vivo e deve ser mantido em suas águas como os peixes, para que não fique sem ar; em suas terras como raízes, para que não morra. Quando minérios são retirados, seus espíritos se rebelam, exigem retribuição e o pai do minério leva embora alguns seres, causa desentendimentos. Tirar o ouro pode ser a morte do mundo. Todos os tesouros subterrâneos têm seus guardiões. Os próprios garimpeiros sabem que o sangue chama o ouro e o ouro chama a morte. O ouro é como fogo, diz um garimpeiro; cintila e depois some, vira fumaça. A fortuna súbita traz infelicidade, o ouro de garimpo deve ser logo esbanjado.

Com todo o seu arroubo e brilho o ouro não dá vida nem saciedade. Tem parte com a cobiça, a vaidade, a riqueza leviana. E sempre foi causa de muita violência nas histórias de Eldorados. Os indígenas sofrem por terem ouro em suas terras: garimpeiros as invadem, desmatam, instalam máquinas nos rios, transformam água limpa em lama, contaminam águas e matas com mercúrio, levam fome, doenças, morte. O ouro ilegal é vendido nos fundos das lojas da rua do Ouro, faz um percurso obscuro e vai até grandes comerciantes aqui e fora do país. Vem para nossos dedos, pulsos, colo, para nossas orelhas e quando nos olhamos num espelho não pensamos no rastro de devastação que traz.

Ana Miranda, transcrito do Jornal O Povo de 24 de dezembro de 2022


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