SONHO DE MALALA – por Ana Miranda

Depois de assistir às cenas de barbárie que aconteceram nas casas dos Três Poderes, em ataque contra a democracia, me veio à mente a menina Malala, com seu poder que surge da delicadeza. Quando Malala nasceu, em uma aldeia no Vale do Swat, ao norte do Paquistão, os aldeões não foram celebrar; só o faziam no nascimento de meninos. Seu nome significa “tomada de tristeza”. O pai, professor e dono de uma pequena escola, ensinou a filha a ler e escrever; depois que todos dormiam, ele lhe dava aulas de literatura, história, política, e Malala tomou-se de amor pelo conhecimento.

Quando o Talibã dominou o Vale do Swat, Malala tinha apenas dez anos. Escolas foram fechadas, dinamitadas. Aos onze anos ela já defendia o direito das meninas a estudar. Ia para a escola em outra província, com o uniforme escondido na mochila, para não ser espancada. Apareceu em um documentário do New York Times; dava entrevistas, fazia palestras, e passou a receber ameaças de morte. Aos quinze anos, quando retornava da escola na província de Khyber Pakhtunkhwa, o ônibus escolar foi parado por talibãs, que entraram e perguntaram quem era Malala. Ninguém respondeu, mas um dos combatentes a reconheceu. Malala levou três tiros no rosto. Foi levada para um hospital de feridos da guerra, na Grã Bretanha. Passou a viver no exílio, com a família. Tornou-se ativista pelo direito à escola para meninas, sob o princípio de que livros, canetas e cadernos são as armas mais poderosas. Recebeu o Nobel da Paz. E disse a fase que me vem à lembrança: Eles atiraram no meu rosto, mas não podem atirar nos meus sonhos.

É isso o que estou sentindo. Mesmo ferida, abalada, como se tivesse levado tiros no rosto, sei que jamais alguém conseguirá destruir o sonho da democracia. Ninguém vai apagar a cena mais forte e simbólica da história recente, que correu mundo: o presidente sobe a rampa com um indígena, um jovem especial, uma costureira, um menino, um cachorro, uma mulher militante, um operário, um professor… e recebe a faixa de uma catadora negra. Isso é simplesmente indestrutível.

Tentam destruir, quebram vidros, esfaqueiam pinturas, roubam armas, mas não vão conseguir; se a democracia não existir na realidade, existirá como sonho, porque em todos os mundos humanos, mesmo nos países regidos pela tirania, sempre haverá multidões que desejam, gritam, lutam pela preciosa democracia. Porque é o regime que busca paz e bem-estar para todos. Regime que não oprime e não causa guerras. As pessoas necessitam da liberdade, justiça, prosperidade, do equilíbrio, da felicidade e da paz que a democracia distribui igualmente. O sonho não será jamais abatido a tiros. Porque meninas querem estudar, indígenas querem paz nas suas florestas, mulheres e negros querem respeito, igualdade, famintos querem o alimento, os que sofrem querem ter voz. E a democracia é o único sistema que pode dar direitos iguais, dar voz a todos. A democracia é uma semente antiga, do bem, fecunda, plantada na historia da humanidade; sempre floresceu. E sempre vai florescer, com a força da floresta que nasce nas frestas da pedra.

ANA MIRANDA, extraído do site do jornal O Povo de 14 de janeiro, de 2023


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