SIRENA – agosto de 1955

Do valor desta história são causa e condição exclusivas a imaginação do leitor.

Eu, por mim, supinamente prático, não sou dado a processos imaginativos.

Só posso começar a história …

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Edward passeava à noite, como costumava, por uma praia deserta, sozinho, olhando a luz que enluarava as ondas. O ruído macio do mar, espreguiçando-se sobre a areia e a quietude das horas escuras faziam-no sentir-se bem. E, naquele dia, imaginava-se no céu. Contemplava, extasiado, a maravilha da paisagem, quando ouviu uma voz que sussurrou:

– Que fazes aí ?

Olhou a ver se via alguém e nada: a solidão somente…

– Olha bem e me verás.

Ele girou sobre si mesmo. A voz vinha do mar, como se as ondas falassem. Era uma voz suave e doce, como nunca ouvira antes.

Procurou, ansioso, quem assim lhe chamava e pôde ver, então, sobre uma pedra, iluminada ternamente pela luz da lua, uma linda mulher nua, que lhe sorria.

Sacudiu a cabeça e permaneceu um instante de olhos cerrados. Quando os abriu de novo, de novo a viu, banhando-se com graça, cada vez mais bela. E cantava uma canção maravilhosa.

Ele chamou-a.

– Eu não posso, respondeu-lhe ela; vem tu a mim.

Ele começou a despir-se mas ela, ante a iminência daquele quadro aterrador que ante si teria – daquele homem nu – apressou-se a sair das águas.

Era metade mulher, metade peixe..

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Como toda pessoa sensata ele nunca duvidara da existência de sereias.

Sentaram-se os dois e conversaram:

– Como te chamas, inquiriu ela com doçura.

– Edward. E tu, sereia ?

– Sereia, respondeu-lhe com um sorriso.

– De onde vens ? Que fazes aqui ? Não vivias há muitos séculos nos mares da Sicília ?

– Como sabes ? Conheces-me ?

– Ouvi falar de ti. Tenho pais italianos.

– Os meus são gregos.

– Calliope …

– … e Acheloo !

Ele quedou mudo um instante e contemplou-a com atenção. Era linda. Jovem ainda, com os cabelos louros, que lhe caíam sobre os seios, e não pareciam molhados. Sua tez era clara, como o luar que a iluminava. Sua voz era um canto harmonioso.

– Mas não me respondeste, insistiu ele. Que fazes aqui ?

– Meus pais me têm muito presa, obrigando-se, ainda hoje, a atrair, com meus cantos, os navegantes incautos. Mas a mim me desagrada a minha vida. Hoje, até as doze da noite, eles não estarão em casa, e eu fugi a ver o mundo.

– E me encontraste. Eu sinto-me feliz !

– Mas será por breve instante !

– Porque ? Ainda tenho a vida toda em minha frente. E tu, que hás de ser minha.

– Não te iludas. Bem o quisera, mas não posso. Se não voltar até a meia noite não entrarei mais em casa. E como viverei então ?

– Comigo.

– Como ? Se não sou mulher ! Nem tão pouco no mar, que não me querem os outros peixes …

Ele olhou-a nos olhos e viu-lhe lágrimas que o comoveram.

Olhos verdes, muito verdes, e tão belos. Um nariz pequeno, levemente arrebitado. Os lábios virgens e infantis, juntando-se num biquinho de tristeza.

Tomou-a repentinamente nos seus braços e beijou-a.

Ela afastou-se depois de alguns instantes e começou a chorar com desespero.

– Que tens ? Porque choras ? Acaso desagrado-te ?

– Não, não ! Eu choro ser sereia e não poder te amar.

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A meia noite chegava. A lua já se elevara de todo. Os dois, juntinhos, sem dizerem nada, tinham os corpos beijados pelas ondas acariciantes.

Edward pensava. A primeira vez em que sentia amor na vida. Não permitiria que a felicidade que tão bela veio assim se fosse, inexoravelmente.

Precisava fazer qualquer coisa !

Uma onda maior tomou-a de seus braços.

– É o mar que me chama. Vou partir. Adeus ! Não nos veremos mais, mas será eterno o nosso amor. Adeus !

– Não vás ! Se partires, irei buscar-te. Seguirei em teu encalço para que o mar me afogue.

– Não faças isso, que é loucura ! Fui um sonho em tua vida…

– Um sonho divino que sonharei para sempre.

– Adeus !

– Se fores eu vou !

– Adeus.

Ela desapareceu nas águas e ele seguiu-a. Durante um instante não se viram os dois. Mas logo outra onda os trouxe, abraçados, e os depositou na areia.

– Porque fizeste isso, disse-lhe ela. Nunca mais serei feliz e a culpa há de ser tua.

– Serás feliz, que eu te prometo. Na vida nada há que não se ajeite.

E eis que, em breve tempo, casou-se com a sereia, agora uma mulher perfeita. Como conseguiu essa transformação, nunca se soube.

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Do valor dessa história são causa e condição exclusivas a imaginação do leitor.

Eu, por mim, supinamente prático, não sou dado a processos imaginativos.

Só pude começar a história. O leitor amigo que a encerre … e se, para bom termo, precisar dividir a heroína em duas partes, mulher e peixe, deixe-me esta última, e almocemos juntos.


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