O VALOR NÃO É UMA COISA NATURAL NEM SOBRENATURAL

Ontem, numa entrevista ao Jornal das Dez da Globo News, a excelente Monica de Bolle se referiu, a certa altura, como um dos precedentes da quebra do SVB nos EUA, às várias crises pelas quais vem passando as pessoas e empresas envolvidas com o mercado de criptomoedas.

Há tempos, tive um amigo, aqui no Brasil, que inventou uma criptomoeda e acreditava, firmemente, que conseguira criar valor. Ou seja, acreditava que a sua invenção iria permitir-lhe voltar a ter dinheiro na sua conta bancária, depois de alguns anos de vacas magras.

Ora, se produzir uma criptomoeda for, mesmo, uma forma de captar o valor nas esferas metafísicas para, em seguida, transformá-lo em dinheiro e recompor o saldo de sua conta no banco, isso deve ser algo realmente muito bom.

Talvez esse meu amigo cresse, ao mesmo tempo, que a sua criptomoeda, depois de minerada, fosse um valor natural, como o ouro, conversível também em dinheiro, passível de ser igualmente depositado em sua conta bancária. É possível que muita gente pense como ele e por isso lhes pareça que a criptomoeda é tão fantástica como a lâmpada maravilhosa de Aladim.

Numa direção diferente,  supõem alguns que o dinheiro vem do nada. Nesse caso, o valor emanado na criptomoeda viria também do nada.

Se pensarmos, contudo, na moeda como uma lei, logo constataríamos que o valor – porque a moeda é inegavelmente um valor – não é sobrenatural, nem natural, nem provem do nada.

Vale a pena, portanto, defendermos a tese de que a moeda é uma norma jurídica, como a lei. Partindo dessa premissa podemos entender muita coisa complicada que se passa atualmente ao nosso redor no mundo financeiro, como a quebra do SVB nos Estados Unidos.


1 comentário até agora

  1. letacio março 14, 2023 1:27 pm

    Hans Kelsen, na sua Teoria Pura do Direito ( trad. Portuguesa, p. 40 ) escreve: “ Quando, porém, nos representamos a norma constitutiva de certo valor e que prescreve determinada conduta como procedente de uma autoridade supra-humana, de Deus ou da natureza criada por Deus, ela apresenta-se-nos com a pretensão de excluir a possiblidade de vigência ( validade ) de uma norma que prescreva a conduta oposta. Qualifica-se de absoluto o valor constituído por uma tal norma, em contraposição ao valor constituído através de uma norma legislada por um ato de vontade humana. Uma teoria científica dos valores apenas toma em consideração, no entanto, as normas estabelecidas por atos de vontade humana e os valores por ela estatuídos. “

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