VIESES IMPLÍCITOS: UMA LEITURA DA PESQUISA GENIAL/QUAEST A PARTIR DA HISTÓRIA BRASILEIRA E DA PSICOLOGIA COGNITIVA. DESVENDANDO AS RAÍZES DE NOSSOS VIESES IMPLÍCITOS –por MONICA DE BOLLE

O nervosismo internacional permanece após a derrocada do Silicon Valley Bank. Contudo, o que está roubando a cena e dominando as atenções do Brasil no momento não são as mazelas das instituições bancárias ao redor do mundo. O que está sob os holofotes, olhares, e tuítes opinativos brasileiros são as revelações da pesquisa conduzida pela Genial/Quaest. Nela, foram ouvidos 88 executivos do mercado financeiro, e, pasmem: praticamente todos acham que a política econômica está errada e que nada vai melhorar, ao contrário do que diz a opinião pública. Seria essa a prova cabal de que o mercado nutre ideologias? Encontramos o Bolsonarismo entranhado do qual sempre suspeitamos? São essas realmente as perguntas que importam ao pensarmos nos resultados da pesquisa?

Adianto que não, essas não são as perguntas mais interessantes. Afirmar que “o mercado é ideológico e dogmático”, que “o mercado se posiciona contra o governo”, que “o mercado tem má vontade com a gestão Lula” são obviedades tão óbvias desveladas nos últimos meses que elas até se tornaram clichês. Não é nos clichês que encontraremos aquilo que pode nos dar a direção dos por quês. Não é na palavra morta, a expressão máxima do clichê, que vislumbraremos algumas verdades sobre nós mesmos, sobre o país, sobre aquilo que designamos “debate econômico”, mas que na verdade não passa de um punhado de frases enrugadas apoiadas por bengalas. O que a pesquisa revela de genuinamente intrigante não é aquilo que já sabíamos, mas as marcas profundas da nossa história. Os vieses implícitos.

Comecemos pelos 88 indivíduos que participaram da pesquisa. Quem são? Ao que consta, são gestores de fundos de investimento. Fundos de investimento trabalham em várias frentes distintas, operam diferentes tipos de ativos nos mais variados mercados, são sofisticados. Contudo, fundos de investimento no Brasil ainda são, também, marcadamente caracterizados pelas suas operações de tesouraria. O que são operações de tesouraria? Em geral, são transações de curto prazo — muitas vezes de curtíssimo prazo — com títulos públicos, moedas, e, por vezes, ações de empresas que tenham grande liquidez nos mercados. Deixemos de lado as ações para efeitos da argumentação desse artigo. Importante é saber que tesourarias gerem caixa e conduzem operações diárias, muitas delas especulativas. O tesoureiro sempre teve uma espécie de status desmesurado no Brasil. Por que?

Olhem para o Brasil. Olhem com cuidado. Pensem na nossa história, nos fatos econômicos que marcaram gerações, ainda que as mais jovens não os tenham vivido. O que ainda distingue o Brasil entre seus pares, as economias emergentes de maior porte? Excluo a Argentina por não ser mais o país vizinho parte desse grupo.

O traço distintivo da história econômica brasileira foi a hiperinflação de duas décadas que vivemos. Quem eram os heróis das classes mais ricas — e da classe média — ao longo da era hiperinflacionária? Acertou quem apontou o dedo para os tesoureiros. Sim, eles. Os homens brancos de terno — outrora vestiam-se assim, hoje usam calças descoladas e sapatênis — que diariamente manejavam o caixa das empresas, dos bancos, e a renda daqueles que podiam ter uma conta bancária e aplicar esse dinheiro no chamado overnight. O mercado overnight era o liquidificador que mantinha o dinheiro daqueles que podiam dele desfrutar protegido da corrosão brutal pela incessante alta inflacionária.

Diante da imensa importância dos tesoureiros e de seu papel na era hiperinflacionária, não é por acaso que até hoje sejam eles vistos como os representantes máximos daquilo que chamamos de “o mercado”. Os tesoureiros tinham um papel importante a cumprir, e a essa importância e responsabillidade veio atrelado o poder. Poder econômico, poder político, poder de influenciar a história de um País. Poder de determinar o próprio path-dependence — a dependência da trajetória — desse País. Para cumprir o seu papel, tesoureiros eram os principais responsáveis por gerar análises econômicas, avaliações de cenários. Claramente, em ambiente hiperinflacionário, impossível era enxergar qualquer horizonte futuro. Portanto, o horizonte dos tesoureiros sempre foi o curto prazo. Ou, mais precisamente, o curtíssimo prazo. Aquele espaço de tempo compreendido entre a noite e o dia.

Horizontes determinam focos de análise. Portanto, horizontes curtos em ambiente de extrema instabilidade macroeconômica não se prestam à elaboração de planos de desenvolvimento, aos “projetos de país”, às análises estruturais. Horizontes curtos requerem análises puramente conjunturais a partir de suas variáveis de destaque. Quais as variáveis de destaque das avaliações conjunturais? A inflação, que, houve época, era estimada diariamente; a taxa de câmbio da moeda nacional — foram muitas as moedas nacionais — em relação ao dólar; o revirar diuturno dos mercados de títulos públicos. Durante a era “hiperinflação pós-moratória da dívida” que vivenciamos o governo precisava financiar todo o estoque de dívida pública diariamente. Quem mantinha essa roda girando, quem fornecia a graxa? Ora, os tesoureiros.

Compreendem? Os tesoureiros persistem em nossas mentes porque foram muito marcantes na vida nacional. Os tesoureiros foram, de certo modo, incorporados a nossa “cultura econômica”: ao linguajar, ao vocabulário utilizado, àquilo que consideramos prioritário. Inflação, dólar, dívida pública — essa é a tríade perene, a santíssima trindade dos tesoureiros, legado de uma era que moldou nossos vieses implícitos. Não é de estranhar, portanto, que a pesquisa Genial/Quaest tenha desencavado esses vieses. Eles estão logo ali, na superfície do inconsciente, nas camadas logo abaixo da pele, no sangue.

São eles que determinam os temas do colunismo econômico não exatamente de uma nota só, mas de três notas. Inflação, câmbio, dívida. Às vezes, inflação, câmbio, déficit fiscal. São eles que ditam os discursos, as prioridades do noticiário, as análises prontas que assistimos na TV. É tudo história, é tudo trauma, é tudo legado. É tudo viés.

Nós passamos pelo Plano Real. Nós arrumamos a economia e conseguimos estabilizá-la. Nós nos transformamos em um país mais próximo da normalidade, ainda que sejamos brutais com a nossa população mais pobre. Nada disso é capaz de apagar vieses entranhados, como diria qualquer especialista da área de psicologia cognitiva, sobretudo aqueles que são estudiosos dos vieses implícitos que inevitavelmente todos carregamos. Frente a isso, ou seja, com a compreensão histórica que nos permite ver como a economia é culturalmente absorvida, seus temas mais traumáticos transformados em vieses implícitos, de quê adiantam os tuítes e colunas horrorizados com os resultados da pesquisa? A indignação generalizada nos traz alguma compreensão? Penso que não, e por esse motivo me detenho na análise e na busca da curvatura das raízes que se formaram em nós como sociedade.

Há uma parte significativa da sociedade brasileira que se nega a trazer à superfície da consciência os escombros psíquicos deixados pela hiperinflação. Tratemos, pois, de reconhecer o quão mobilizadores de afetos, emoções, e suposta racionalidade são os vieses implícitos.

Inflação, câmbio, dívida. Tratemos de trocar a tríade por desigualdade, desenvolvimento, demolição da pobreza. Curto uma aliteração.

Em 15.3.23, transcrito do site da Substrack


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