AS MÃOS DO SAPO – por Ana Miranda

Houve muito debate aqui sobre que animal seria. Ouvimos de vez em quando um ronco, tanto de dia como à noite e ainda mais, nas madrugadas. No começo pensei que pudesse ser um cassaco. Mas acabamos concordando, todos, que trata-se de um sapo. Há um sapo morando na minha biblioteca.

Sapo-granuloso, sapo-parteiro, rã-pimenta, rã-arlequim, uma perereca dourada, talvez, acho que não um cururu, aqui há muitos, mas ele seria grande para caber no patamar da estante de livros onde achamos que deve estar escondido, capturando pequenos insetos com sua língua musculosa, longa e pegajosa. Talvez saia à noite atrás de uma fêmea, pois dizem que o canto do sapo é solidão e desejo de amor. Talvez um filhote cururu, soube que uma multidão de pequenos cururus anda pelos gramados de um condomínio que fica perto da lagoa de Precabura, de onde eles devem estar vindo, quem sabe por algum desequilíbrio ambiental, ou em busca de uma biblioteca.

Não sei como ele pode sobreviver aqui, sem uma lagoa, poças nem marismas d’água doce, como ele pode viver dentro de casa, atrás de uma estante de livros, não sei. Mas sei que ali ele coaxa, com sua voz rouca e delicada. Mesmo sem conhecê-lo, nos afeiçoamos a esse misterioso bufo. Eu lhe digo bom dia. A brincadeira é descobrir que livro ele está lendo.

Parece que ri: Ah, deve estar lendo Shakespeare. Ou as crônicas do Machado de Assis, quando o sapo ri de madrugada. Por vezes parece estar chorando, e pensamos: Está lendo o Fome, de Knut Hamsun; ou A peste, de Camus; ou Guerra e paz, de Tolstói; ou os belos desesperos de Clarice, há mais tristeza do que alegria na literatura. Talvez tenha vindo ler o Bufo & Spallanzani, romance de Rubem Fonseca que causou uma polêmica na época da publicação, pois alguém criticou, num jornal, que o sapo do livro tinha mãos, o que seria um erro do autor. Mas veio em defesa de Fonseca o zoólogo e músico Paulo Vanzolini. Ele disse que os sapos têm mãos, e não patas como queria o crítico no jornal. Olhei fotografias de sapos, eles realmente têm mãos, por vezes com polegar, dedo mínimo… O sábio Vanzolini foi quem adaptou a Teoria dos Refúgios, nome dado a um fenômeno que ele percebeu em suas expedições pela Amazônia, quando o clima chega a destruir um conjunto vegetal, reduzindo-o a ponto de formar um espaço vazio em meio à mata cerrada. Ele sabe o que diz, e conhece realmente os sapos. Há, mesmo, um sapo com seu nome: Alsodes vanzolinii. Há centenas de espécies de sapos na Floresta Amazônica, algumas delas em perigo de extinção. Verdes, azuis, vermelhos, rajados, listrados, fosforescentes, pintados como onças, com chifres, voadores, das chuvas, das árvores; dos lindos aos feios, dos gentis aos venenosos. A cada dia encontram novos tipos, agora apareceu um sapo com nariz de anta e cor de chocolate.

Parece que todas as conversas, nos dias de hoje, caminham, caminham, são todas afluentes da Amazônia, o novo centro do mundo. Em qualquer país aonde chego, quando digo que sou brasileira logo escuto: Amazônia! Não se referem à região, mas à floresta, tida como a maior de todas as riquezas do planeta, e sua salvação, nosso ar, nossas águas, chuvas, nossa vida. Ali deve viver apenas quem a protege, e não quem a destrói. Indígenas, aves, macacos, peixes… e sapos.

Ana Miranda, transcrito do site do jornal O Povo de 18 de fevereiro de 2023


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