CIDADES SELVAGENS – por Ana Miranda

Vemos uma família de raposas a brincar em um campo verde, e pensamos que elas estão na selva; mas logo descobrimos que vivem nos parques de Berlim. Quase duas mil raposas moram na cidade, em uma convivência pacífica com porcos-espinhos, coelhos, fuinhas, castores que se banham em riachos, esquilos saltando nos galhos, diversos tipos de aves, como gaivotas, francelhos, cisnes nadando em lagos… e seres humanos.

A javalina atravessa em frente a um carro seguida por seus filhotes; o texugo passa na calçada onde vem um pai com um carrinho de bebê. Há animais, árvores e jardins por todo lado. Paredes ajardinadas, tetos ajardinados; prédios como falésias de morcegos. Ao anoitecer, animais saem de suas tocas e tomam conta dos parques, dos jardins. Mas, também de dia as cerca de vinte mil espécies de animais e plantas formam a paisagem da cidade.

Quase metade da sua área é verde, com bosques, rios, pântanos e relvas: corredores verdes, praças, ruas; sempre são plantadas espécies que favorecem a vida de seres selvagens, e tudo é desenhado de maneira que os animais se sintam à vontade. Áreas verdes e aquáticas se interligam, vindo das periferias para o centro, em forma de estrela; isso leva naturalmente os animais a circularem por toda a área urbana.

Claro, há pequenos incidentes, como a raposa que morde um cachorro, ou o guaxinim que se abriga em uma garagem. Uma águia-rabalva ou um falcão no sótão de casa. Corujas-da-noite vão dormir nas chaminés… Mas, serão assim as cidades do futuro: selvagens. Isso traz saúde, felicidade, ar limpo, frescor, benefícios para os animais e para os moradores. E isso não está acontecendo somente em Berlin. Muitas outras cidades começam a se renaturalizar. A China está cumprindo um plano gigantesco para tornar todas as suas cidades em áreas verdes, para limpar a atmosfera e melhorar o calor, que tem aumentado. É um sistema de bosques urbanos, que já plantou mais de cem milhões de árvores; e se multiplicam as hortas, os modernos edifícios com varandas repletas de jardins que tornam as fachadas quase uma selva vertical.

Em sete anos, Madri converteu um canal inóspito, que atravessava a cidade, em um maravilhoso rio selvagem repleto de animais como garças, lontras, martim-pescadores e peixes. Paris está eliminando espaços de carros, que são entregues a pedestres, a ciclistas, e ajardinando tudo. Amsterdã está tomada por jardins, e é um paraíso para observadores de aves; acima das ruas e canais, entre as árvores, voam desde periquitos a gaivotas, garças, cegonhas… As cidades que teimam em asfaltar espaços, cortar árvores, sujar os rios, cimentar parques terão problemas cada vez mais sérios. Quem não sabe disso, nos dias de hoje.

Que todas as cidades sejam abençoadas por deusas naturais, dríades, iaras, divindades da vegetação, as mães da fertilidade africanas, as deusas etíopes e iemenitas dos oásis, as princesas floridas japonesas, as deusas sumérias das plantas… que todas as forças da natureza e prefeitos cubram as cidades de árvores, plantas, flores, onde animais humanos e não humanos se sintam felizes.

Ana Miranda, transcrito do site do jornal O Povo, 18 de março de 2023


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