OBSERVATÓRIO DE NUVENS – por Ana Miranda

Viajando pelo sertão cearense, chegamos ao Vale do Cariri, cercado de montanhas azuis. Parece que estamos vendo o mar. Majestosas, serenas. Naquele sertão havia mar, que se foi há milhões de anos, quando o continente Gonduana se partiu ao meio e as águas escaparam pela fenda. O mar deixou sua lembrança: lá estão o azul das águas, os peixes de pedra. E a sensação de que o sertão vai virar mar. Profecia de Antônio Conselheiro no século 19, mas encontrei uma peregrina que punha a mão na face de Jesus e dizia: o gelo da China vai derreter e tudo vai ser inundado, Fortaleza, Quixeramobim, as pedras de Quixadá, só vai sobrar o Horto de padre Cícero. Sentada num banco da capela, fiquei pensando nas profecias científicas de destruição do clima, vendo a paisagem impregnada pelas distantes serras azuis.

Acima da chapada desponta o céu povoado de imaginativas nuvens. É possível ficar longamente divertindo-se com fantasias ingênuas ou pensamentos apocalípticos. Talvez sejam as serras que tornem os habitantes dali tão religiosos, como acontece em Minas Gerais, terra das montanhas de ferro e igrejas edificadas com ouro, dos sentimentos de solidão que viram poesia. O Cariri, lugar de antigos povos indígenas, onde começou a “civilização” dos brancos cearenses, é povoado de beatos, sacerdotes, santos, céus e infernos, milagres, sangue, católicos esperando o céu, ou o fim do mundo.

As histórias que minha amiga nascida em Barbalha conta são fantásticas: a criança que começou a falar aos três meses de idade, o escravizado que subia de costas na coluna da igreja, a menina que cuspia ouro… Se eu tivesse nascido no Cariri, minha literatura seria puro realismo mágico. Mas nasci na Praia de Iracema e herdei outras sagas. Porém, no Cariri eu sentia origens mais antigas, para além de meus avós, de dona Bárbara, das guerras republicanas, além dos indígenas Kariri e do Araripe onde o dia começa antes de começar, e jorram quase cem fontes de água cristalina.

Dali, a contemplar as extraordinárias nuvens que pareciam velhas de milhões de anos, pensei nos dinossauros que viveram no vale até que um asteroide caiu do céu e exterminou-os, assim como a outros animais e plantas, com incêndios florestais, chuvas ácidas, erupções vulcânicas. Assombrosos pterossauros com asas e cristas espetaculares viraram fósseis os quais vemos no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens. Na Itália, Plácido viu fósseis do Cariri sendo vendidos em feiras de rua, os mesmos que na sua infância ele via pelo chão, desprezados. Voltou, criou o Museu para ali serem preservadas essas preciosidades. E lá estão antigos habitantes do vale petrificados: troncos, folhas, moluscos, aranhas, escorpiões, delicadas libélulas, insetos; tubarões, raias, peixes ósseos, lagartos, dinossauros. Tesouro de nosso país. Todos os que guardam fósseis em casa devem entregá-los ao Museu. E precisamos levar nossos filhos e netos para conhecerem essa riqueza.

Demorei olhando as nuvens ao mesmo tempo mutantes e imutáveis, imaginando o lugar daqui a cem milhões de anos. Ah, como nós, humanos, somos efêmeros!

Ana Miranda, transcrito do site do jonrla O Povo de 4 de março de 2023


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